Solidariedade: promover uma vida digna para as pessoas mais frágeis e vulneráveis da sociedade
A atual cultura econômica e política estimula a indiferença diante do sofrimento alheio, priorizando o interesse individual ou de grupo em detrimento do bem comum e colocando os direitos individuais em oposição aos direitos coletivos. Diante dessa realidade, a prática da solidariedade constitui uma exigência urgente para promoção de uma vida digna para todos, principalmente, para os mais frágeis e vulneráveis da sociedade.
Significado
A solidariedade não é "um sentimento de compaixão vago ou de enternecimento superficial pelos males sofridos por tantas pessoas, próximas ou distantes. Pelo contrário, é a determinação firme de se empenhar pelo bem comum; ou seja, pelo bem de todos e de cada um, porque todos nós somos verdadeiramente responsáveis por todos"[1]. Ela se expressa no cuidado da vida, principalmente dos mais frágeis, na família e na sociedade, sendo uma atitude de serviço abnegado em favor da promoção do outro”[2].
Alcance
A solidariedade contém as seguintes dimensões:
Pensar e agir em comunidade: Priorizar a vida de todos sobre a apropriação dos bens por parte de alguns.
Lutar contra as causas estruturais da injustiça: Combater a pobreza, a desigualdade, a falta de trabalho, de terra e de moradia, bem como, a negação dos direitos sociais e trabalhistas.
Enfrentar os efeitos destrutivos do império do dinheiro: Combater os deslocamentos forçados, as migrações dolorosas, o tráfico de pessoas, as drogas, a guerra e a violência — males que todos são chamados a transformar.
Fazer história: Constituir-se como um modo autêntico de atuar na história, a exemplo do que fazem os movimentos populares”[3].
Fundamento
À luz da fé cristã, a solidariedade incorpora as dimensões “da gratuidade, do perdão e da reconciliação”. O próximo não é compreendido apenas como sujeito de direitos ou como alguém que possui a mesma dignidade fundamental dos demais. Ele é “imagem viva de Deus Pai, resgatado pelo sangue de Jesus Cristo e ... objeto da ação permanente do Espírito Santo. Por isso, ele deve ser amado, ainda que seja inimigo, com o mesmo amor que o ama o Senhor; e é preciso estarmos dispostos ao sacrifício por ele, mesmo ao sacrifício supremo: ‘dar a vida pelos irmãos’[4].
Jesus viveu a plenitude da solidariedade: aos doentes, curando-os; aos famintos dando-lhes de comer; aos pecadores oferecendo-lhes o perdão e a conversão; aos dominados pela força do mal, libertando-os; aos excluídos social e religiosamente, acolhendo-os e restituindo-lhes a dignidade e reintegrando-os à convivência comunitária. Em Jesus a solidariedade de Deus, para com a humanidade atingiu sua expressão culminante, ao doar sua vida na cruz[5]. Desse modo Jesus manifestou seu amor solidário à humanidade pecadora, redimindo-a e reconciliando-a com o Pai. Assim, libertou os seres humanos da escravidão do pecado e abriu-lhes, pela graça, o caminho da liberdade dos filhos e filhas de Deus. E por meio de sua ressureição, os seres humanos tornam-se novas criaturas [6].
A prática da solidariedade também tem como referência a comunhão trinitária. A “vida íntima de Deus, uno em três Pessoas” é caracterizada pela comunhão. A Igreja, com o auxílio do Senhor, a preserva, a alarga e a enriquece, pois ela é a ‘alma da sua vocação’. Assim, a solidariedade “deve contribuir para a realização deste desígnio divino, tanto no plano individual como no da sociedade nacional e internacional”[7].
A solidariedade entre os pobres e a missão da Igreja
A Igreja reconhece e valoriza a solidariedade entre os pobres, que se organizam e se manifestam publicamente, de forma não violência, na busca de seus legítimos direitos diante da ‘ineficácia e da corrupção dos poderes públicos. Em virtude do seu peculiar compromisso evangélico, a Igreja sente-se chamada a estar do lado das multidões pobres, a discernir a justiça de suas solicitações e a contribuir para satisfaze-las, sem perder de vista o bem dos grupos no quadro do bem comum"[8].
A solidariedade entre as nações
A Igreja defende a prática da solidariedade também nas relações internacionais. “A interdependência deve transforma-se em solidariedade, fundada sobre o princípio de que todos os bens da criação são destinados a todos: aquilo que a indústria humana produz, com a transformação das matérias primas e com a contribuição do trabalho, deve servir igualmente para o bem de todos[9].
A solidariedade e a paz mundial
A solidariedade é o caminho para alcançar a paz em sua plenitude. Ela “é inconcebível se não se chegar, por parte dos responsáveis, ao reconhecimento de que a interdependência exige por si mesma a superação da política dos blocos, a renúncia de todas as formas de imperialismo econômico, militar ou político e religioso, e a transformação da recíproca desconfiança em colaboração. Esta última, precisamente, é o procedimento próprio da solidariedade entre os indivíduos e entre as nações"[10]
Investir na educação de hábitos solidários
A virtude da solidariedade precisa ser fortalecida tanto na Igreja quanto na sociedade. Por isso, é urgente investir na formação de hábitos solidários nos fiéis e em todas as pessoas de boa vontade. A finalidade desse mutirão educativo é motivar a “sociedade a reagir diante das próprias injustiças, das aberrações e dos abusos dos poderes econômicos, tecnológicos, políticos e mediáticos”, bem como de visões liberais adversas ao bem comum[11].
Os hábitos solidários abrem caminho da fraternidade na vida em sociedade. “O princípio da solidariedade, também enunciado sobre o nome ‘amizade’ ou de ‘caridade social’, é uma exigência direta da fraternidade humana e cristã”[12].
Conclusão
Todos os cristãos e todas as pessoas de boa vontade são convocados a não se deixar conduzir pela tentação da indiferença. O Papa Francisco denuncia um dos males atuais mais terríveis, a globalização da indiferença: “Neste mundo da globalização, caímos na globalização da indiferença. Habituamo-nos ao sofrimento do outro, não nos diz respeito, não nos interessa, não é responsabilidade nossa”[13].
O Papa Leão XIV, denuncia a omissão de alguns movimentos ou grupos cristãos no compromisso pelo bem comum da sociedade, de modo especial na promoção dos mais fracos e desfavorecidos. Segundo o Papa, a religião cristã, não se limita à esfera privada dos fiéis, mas interessa-se profundamente pelos problemas sociais e por tudo o que afeta a vida dos cidadãos[14].
A indiferença configura uma “tentação que nos cerca de nos desinteressar pelos outros, especialmente pelos mais frágeis. Dizemos que crescemos em muitos aspectos, mas somos analfabetos em acompanhar, cuidar e sustentar os mais frágeis e vulneráveis das nossas sociedades desenvolvidas. Habituamo-nos a olhar para o outro lado, a passar à margem, a ignorar as situações até elas nos caírem diretamente por cima”[15]
Frei Flávio Guerra, OFM
[1] Sollicitudo Rei Socialis,38, 6
[2] Fratelli Tutti,115,188,189
[3] Idem,116
[4] Sollicitudo Rei Sociais,40,2
[5] Compêndio da Doutrina Social da Igreja, 196
[6] Compêndio da Doutrina Social da Igreja, 41-44
[7] Sollicitudo Rei socialis,40,3-4
[8] Idem,39, 3
[9] Idem,39,4
[10] Sollicitudo Rei Socialis,9, 8
[11] Fratelli Tutti, 167
[12] Catecismo da Igreja Católica,1939-1942
[13] Homilia da Missa no Ilha de Lampedusa, na Itália, 8 de junho de 2013
[14] Dilexi Te, 112
[15] Fratelli Tutti, 64, 65, 70


