POLÍTICA: servir como Jesus ou lavar as mãos como Pilatos?
POLÍTICA: servir como Jesus ou lavar as mãos como Pilatos?
A política compreendida sob a ótica partidária do exercício de poder institucional, encontra-se, em certa mediada, desvirtuada pela corrupção, pela ineficiência, pela interferência do poder econômico da ideologia. Por outro lado, a política entendida como toda ação em prol do bem comum, isto é, de todos os cidadãos, é pouco praticada por boa parte dos católicos.
Missão da Igreja: cuidar da pessoa em todas as suas dimensões
A Igreja, com seu ensino social, tem a missão de “anunciar e atualizar o Evangelho na complexa rede de relações sociais”, isto é, da “própria sociedade”. A missão social da Igreja refere-se ao cuidado do ser humano, pois este vive inserido na sociedade. E sua “convivência social, com efeito, não raro determina a qualidade de vida e, por conseguinte, as condições em que cada homem e cada mulher se compreendem a si próprios e decidem de si mesmos e da própria vocação”. Esta é a razão pela qual a Igreja se ocupa “com tudo o que na sociedade se decide, se produz e se vive, numa palavra, à qualidade moral, autenticamente humana e humanizadora da vida social”. Por isso, “a política, a economia, o trabalho, o direito e a cultura não constituem um âmbito meramente secular e mundano e, portanto, marginal, alheio à mensagem e à economia da salvação”[1]. Diante de sua missão evangélica na política, a Igreja convoca seus fiéis a não reduzirem “o espaço da fé à vida pessoal e familiar, excluindo a ordem profissional, econômica, social e política, como se o pecado, o amor, a oração e o perdão não tivessem importância aí”[2].
Missão política da Igreja: contribuir para a realização do bem comum na sociedade:
- Política com P maiúsculo: para todos os membros da Igreja
A Igreja faz política com P maiúsculo, isto é, contribui pela realização do bem comum, isto é, pela realização dos direitos fundamentais de todas as pessoas. Ao praticar esse modo de fazer política, a Igreja oferece culto ao único Deus vivo e verdadeiro, pois contribui para salvaguardar a infinita dignidade de cada pessoa criada à sua imagem e semelhança[3]. Todos os fiéis da Igreja têm o dever sublime de contribuir, de maneira organizada e coletiva, para a realização do bem comum na sociedade. Entre os principais meios de realizar a política com P maiúsculo estão as Pastorais Sociais, a Caritas, as Obras Sociais da Igreja, a participação dos fiéis nos movimentos sociais, nos Conselhos Paritários, nas Organizações Não Governamentais de cunho assistencial e libertador, bem como aos sindicatos.
- Política com p minúsculo: para os leigos
O Papa Francisco questiona os cristãos por não participarem na política partidária e no exercício do poder político. “A política está muito suja, mas eu pergunto: está suja por quê? Porque os cristãos não se metem nela com espírito evangélico? É a pergunta que eu faço. É fácil dizer que a culpa é dos outros. mas e eu, o que faço? Isso é um dever. Trabalhar para o bem comum é um dever cristão”[4]. A política partidária é o campo de atuação dos leigos[5] que nela devem aplicar as exigências éticas da Doutrina Social da Igreja. Contudo, devem estar cientes que nenhum partido corresponde ao Projeto do Reino de Deus vivido e pregado por Jesus, o Nazareno. Francisco também afirma: “Envolver-se em política é uma obrigação para o cristão. Os cristãos não podem fazer política como Pilatos: lavar as mãos. Tem que participar da política porque ela é uma das formas mais alta de caridade, porque busca o bem comum. Os leigos cristãos devem trabalhar na política”[6].
O poder político a serviço de todos, porém, privilegia os podres
“Para Jesus o poder legítimo se caracteriza pelo serviço e não pela dominação. Se é o serviço, deve caracterizar o poder político, este se estende a todas as pessoas, sem excluir ninguém. Contudo, privilegia os pequenos, os pobres, os oprimidos, os empobrecidos e marginalizados, cujos direitos fundamentais não são respeitados. “O critério decisivo para julgar o comportamento das pessoas – e a fortiori dos que detêm o poder – é atender às reais necessidades das pessoas: dos famintos, dos sedentos, dos sem teto, dos sem-terra, dos sem poder...Só corresponde à evangélica concepção do poder aquele que é exercido em benefício do povo que se torna, assim, mediação do poder que vem de Deus. Por isso, a Igreja (...) proclama que é para o bem da sociedade e para a salvaguarda de sua soberania que o poder é necessário, só isso o justifica”[7].
Não há democracia quando existe fome
A Igreja defende a democracia como sistema de governo, ‘porque ele assegura a participação dos cidadãos nas opções políticas’ e lhes possibilita escolher e controlar os governantes[8]. A democracia cumpre sua finalidade na medida em que as necessidades básicas de seus membros são satisfeitas[9]. Para que isso aconteça, o sistema democrático deve respeitar normas morais universais a fim de garantir uma convivência humana e pacífica. Ela só é verdadeira quando promove igualdade de seus membros, “irmanados nos direitos e deveres”[10].
Radicalização da democracia
A atual crise da democracia tem, entre suas causas principais, o fato de que os partidos políticos, em geral, não representam os interesses da nação, nem da população, especialmente os pobres. Muitas vezes, estão a serviço dos interesses econômicos e de si próprios. O poder econômico mundial utiliza diversos meios para desestabilizar a democracia e sobrepor os interesses econômicos à soberania nacional.
Por isso é urgente:
- Abolir todas as formas de exclusão social e incentivar o respeito à pluralidade étnico-cultural. É necessário também democratizar os meios de comunicação social, o acesso à informação e ao conhecimento, bem como o acesso à terra e à água.
- Investir na cidadania ativa ampliando os espaços de participação popular nas decisões, por meio de plebiscito, de referendos, de iniciativa popular, de conselhos paritários, de fóruns propositivos, de associações civis e da participação nos orçamentos municipais[11].
Frei Flávio Guerra, OFM
[1] Compêndio da Doutrina Social da Igreja, 62)
[2] Gaudium et Spes (GS),42; Mater et Magistra,2,3; Centesimm Anajus (CA),53,54; Puebla(P), 514-515
[3] CNBB, 38, 103; P 521
[4] Francisco, Encontro com alunos e ex-alunos dos colégios jesuítas da Itália e da Albânia, 07/06/13(Francisco); EG,205
[5] GS, 43
[6] Francisco; Octogesima Adveniens,46
[7] CNBB 40, 206
[8] CA,46,47
[9] Compêndio da Doutrina Social da Igreja,407
[10] Veritatis Splendor,96
[11] Campanha da Fraternidade, 1996, 184


