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O grito profético de São Francisco diante das mudanças climáticas (Parte 01)

há 7 horas
5 min de leitura

O texto que segue está dividido em cinco partes. A primeira descreve o grito de dor da Terra provocado pelas mudanças climáticas. A segunda apresenta o grito dos pobres, que são os que mais sofrem com as consequências das mudanças climáticas. A terceira diz respeito ao grito profético de São Francisco na defesa da “irmã e mãe Terra” e dos pobres. A quarta apresenta como o grito de São Francisco nos inspira a agir por meio de ações concretas em defesa de todas as criaturas e dos pobres. E a quinta parte trata do cuidado dos pobres que sofrem com as mudanças climáticas.


I. “Grito da Terra”: as dores de nossa irmã e mãe Terra


Os principais estudiosos das mudanças climáticas chegaram à conclusão de que elas são causadas, em grande parte, pelas ações humanas. Essas ações provocam

grandes enchentes, secas severas, queimadas de grandes proporções, vendavais destruidores, tornados devastadores e chuvas torrenciais.


Além das dores causadas pelas mudanças climáticas, nossa irmã e mãe Terra é submetida a outros tipos de sofrimento gerados pelas ações humanas, que envolvem interesses econômicos e políticos. Entre eles estão a cultura individualista da indiferença e do descarte, a poluição do ar, o aquecimento global, a poluição da água, do solo e do mar, os desmatamentos, as queimadas, a desertificação, a perda da biodiversidade e o descarte irregular do lixo. Este é consequência do excesso de produção de bens para o consumo humano, geralmente supérfluos. Por   isso “a terra, nossa casa, parece transformar-se cada vez mais num imenso depósito de lixo” (LS 21).


O principal fator responsável pelo aquecimento global é o aumento do efeito estufa, intensificado pelas atividades humanas. Ele decorre, entre outras causas, da queima de combustíveis fósseis (petróleo, carvão e gás), do desmatamento irresponsável, das atividades industriais e agropecuárias e da cultura do descarte.


A raiz das mudanças climáticas e da degradação dos bens da criação está associada ao modelo econômico neoliberal de desenvolvimento aliado ao paradigma tecnocrático que prioriza a maximização do lucro e da acumulação: que transforma os os bens da criação em objetos econômicos a serem explorados sem limites; que  concebe o ser humano como senhor absoluto da natureza e, por isso, se relaciona com ela como dono, como proprietário sem respeitar o seu processo de regeneração e de preservação; que que não investe o suficiente em alternativas energéticas; que usa a tecnologia para explorar ao máximo os recursos naturais; que aplica boa parte de seu capital no sistema financeiro em vista do lucro e em detrimento da produção; que promove o consumismo, gerando excesso de lixo de toda espécie; que interfere nas decisões dos Estados em benefício do poder econômico; e que promovem estudos manipulados para desacreditar os eventos das mudanças climáticas. (LS 101-123; 144).


II. Grito dos pobres: seus sofrimentos e suas angústias


As mudanças climáticas atingem, de forma mais intensa, as populações pobres e socialmente vulneráveis. São eles, em geral, os que mais sofrem diretamente os impactos dos eventos climáticos extremos e dos desastres socioambientais, pois muitas famílias, diante das desigualdades sociais e da falta de acesso à moradia digna, são obrigados a morar em áreas de risco por não terem condições econômicas de construir suas habitações em locais mais seguros. A única saída que encontram é morar próximos às margens dos rios, córregos e várzeas, nas encostas dos morros e serras, em áreas de mangue e planícies costeiras. Por isso, são os primeiros a serem atingidos pelas enchentes, pelas inundações e pelos deslizamentos de terra. Muitas vidas são ceifadas, as famílias ficam desabrigadas e seus bens e sonhos de uma vida melhor são destruídos ou adiados.


Uma parcela da população pobre mora no meio rural. Nos períodos de secas severas, ela perde os meios de sobrevivência, pois não dispõe de recursos financeiros para a

irrigação ou para construir açudes. Essas pessoas ficam dependentes da ajuda do poder público, por meio da Defesa Civil, da solidariedade de pessoas de boa vontade e das ações solidárias da Igreja.


A maioria dos pobres mora em bairros periféricos sem infraestrutura adequada para enfrentar eventos climáticos extremos. Onde existem córregos, eles transbordam e invadem as casas, causando muitos prejuízos econômicos. Os bueiros, por sua vez, muitas vezes, não dão conta da quantidade de água, que transborda e torna as ruas intransitáveis. Outro problema são as ruas de chão batido, principalmente nos bairros íngremes, que se tornam de difícil acesso.


As pessoas pobres são muito afetadas pelas tempestades intensas, que envolvem chuva muito forte, ventos rápidos, raios e trovões frequentes e, muitas vezes, granizo. Elas são cada vez mais frequentes e causam destelhamento, destruição de casas frágeis, danos a móveis e aparelhos eletrônicos, queda de árvores, inundações, enxurradas e deslizamentos de terra. As famílias pobres, muitas vezes, trabalharam anos a fio para conseguir um mínimo de conforto e, de repente, quase tudo é perdido. É necessário recomeçar tudo de novo.


Além do sofrimento indescritível causado pelos desastres socioambientais, os pobres sofrem porque são levados para abrigos. Precisam recomeçar a vida do zero e, muitas vezes, são obrigados a mudar de lugar de moradia. Isso gera migrações forçadas dentro do próprio país. Além disso, geralmente, o poder público demora para construir casas em terrenos seguros para as famílias atingidas pelos severos eventos climáticos.


Outra forma de as mudanças climáticas prejudicarem a vida dos pobres é a migração de animais e vegetais, que muitas vezes, têm dificuldade de se adaptar ao novo clima. Isso prejudica os recursos produtivos dos mais pobres e os força a migrar, na incerteza de um futuro melhor para si e para suas famílias. (LS 25)


Até o presente momento, elencamos os sofrimentos que as mudanças climáticas causam, especialmente, na vida das populações pobres. Em seguida, apresentamos dados que ajudam a dimensionar o número de pessoas que podem ser impactadas pelas mudanças climáticas do Rio Grande do Sul. Embora os dados não permita identificar quantas dessas pessoas se encontram em situação de pobreza, é importante considerar que as populações socialmente vulneráveis tendem a estar mais expostas aos riscos das mudanças climáticas e a possuir menos recursos para prevenir, enfrentar e superar as suas consequênciais Segundo pesquisa realizada depois das enchentes de 2024, 564 mil pessoas moram em áreas de risco alto e muito alto. Elas estão distribuídas em 1.944 localidades e ocupam 154 mil imóveis (g1, 28/09/2025). O Estado contabiliza 392 favelas. Nelas moram aproximadamente 150 mil pessoas (IBGE, 2022), das quais 289.584, em Porto Alegre (IBGE, 2022). Esses números revelam a dimensão da população exposta às mudanças climáticas. Os pobres, embora sejam os que menos contribuem para as causas das mudanças climáticas, estão entre aqueles que mias sofrem suas consequências, seja pela precariedade habitacional ou pela menor disponibilidade de recursos para reconstruir suas vidas após os eventos climáticos extremos.


Frei Flávio Guerra, OFM

 
 
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