O grito profético de São Francisco diante das mudanças climáticas (Parte 02)
III. Grito de São Francisco de Assis: cuidar com amor generoso da nossa “irmã e mãe Terra” e dos pobres
No tempo em que Francisco viveu, não havia o problema das mudanças climáticas intensas e exacerbadas, nem a exploração predatória dos bens da Terra e das criaturas que dela fazem parte. Havia um grupo de pessoas com uma visão estranha dos seres criados. Elas diziam que todos os seres existentes na Terra foram criados pelo diabo. Por isso, desprezavam-nos e não os respeitavam. Por outro lado, muita gente, no tempo de Francisco, apesar da abundância de todos os seres existentes na natureza, não cuidava da “irmã e mãe Terra” e de todas as criaturas que dela faziam parte. Havia, da parte de muita gente, indiferença em relação à regeneração e à reprodução das criaturas criadas por Deus.
São Francisco, por seu percurso de vida centrado no seguimento de Jesus, desenvolveu uma espiritualidade de cuidado com todo ser criado, principalmente com os mais frágeis. Colocou-se a serviço dos leprosos, os excluídos por excelência de seu tempo. Tinha profunda compaixão pelos pobres. Seu cuidado com todas as criaturas era comovente. Cuidava, com amor de mãe, dos frades doentes.
São Francisco cuidava e amava todas as criaturas porque descobriu, pela sua oração silenciosa e contemplativa e pela sua imersão permanente com todo o mundo criado, que o ser humano e tudo o que existe neste mundo saíram das mãos de Deus. Por isso, todas as criaturas, inclusive os seres humanos, formam uma única família: a Família de Deus, a fraternidade cósmica. Nela, um depende do outro para viver e sobreviver. Nessa fraternidade cósmica, Francisco tomou consciência de que tinha recebido de Deus a missão de exercitar seu amor fraterno, cuidando de todas as criaturas. Seus biógrafos descrevem muitos gestos de cuidado de São Francisco com as criaturas. Entre tantos cuidados que Francisco tinha com elas, citamos alguns: dar vinho bom e mel para as abelhas no inverno rigoroso, para que não morressem; não cortar as árvores rentes ao chão, para que pudessem brotar novamente; deixar espaço na horta para que todas as ervas e flores pudessem crescer e se desenvolver livremente; receber de um pescador um peixe e, em seguida, devolvê-lo ao rio, para que pudesse continuar a viver. No Cântico do Irmão Sol, Francisco louva e bendiz a Deus pelos benefícios que as criaturas proporcionam ao ser humano.
São Francisco expressa sua espiritualidade ecológica no cuidado com todas as criaturas, no sentido de uma relação fraterna com elas, pois ele faz parte da família delas. Elas não são tratadas como recursos úteis e mercadorias para gerar lucro, nem como objetos a serem explorados sem limites. São Francisco via as criaturas como irmãs que Deus disponibilizou para nos servir na justa medida, isto é, podemos nos beneficiar delas desde que elas possam se regenerar e garantir sua sobrevivência para as gerações futuras.
São Francisco tinha um cuidado especial com os pobres. Ele e seus companheiros viviam pobres porque Jesus viveu pobre e cuidava dos pobres. Ao viverem pobres, colocavam-se em pé de igualdade com as condições dos pobres e sentiam-se felizes em conviver com eles. Serviam com alegria aos pobres mais pobres de seu tempo, os leprosos. Além de cuidar de suas feridas, recolhiam esmolas para seu sustento. Se não dispunham de nada para ajudar os pobres, consolavam-nos com sua presença amorosa. Com seu testemunho de vida pobre e desapegada de tudo, São Francisco tinha um olhar contemplativo e místico em relação aos pobres. Ao olhar para eles, remetia seu pensamento ao modo pobre de Jesus viver. Via no pobre Jesus pobre, que necessitava de esmolas para ele e seus apóstolos viverem. E, ao contemplar Jesus pobre, voltava seu olhar misericordioso ao pobre que contava com sua solidariedade.
IV. Nosso grito profético ativo em favor da vida de nossa irmã e mãe Terra
Inspirados no cuidado que São Francisco cultivava com todas as criaturas da irmã e mãe Terra, somos convidados a expressar nosso amor fraterno por todas as criaturas. Chegou nossa vez de usar os bens da Terra na justa medida, para garantir que elas possam servir às gerações futuras.
É possível, com pequenas ações pessoais, ajudar a irmã e mãe Terra a sofrer menos e, com a multiplicação dessas ações, garantir a sobrevivência das criaturas. Essas ações mudarão nossos hábitos, e nós mesmos seremos transformados em pessoas mais fraternas e amorosas com as criaturas. Segue algumas propostas de gestos concretos que farão a diferença na vida e na preservação dos bens da Terra: consumir água e energia elétrica de forma responsável; separar o lixo e transformar o lixo orgânico em adubo, encaminhando o que pode ser reciclado aos catadores ou às entidades assistenciais; cultivar, em casa, verduras, legumes e temperos sem agrotóxicos; consumir o necessário para uma vida digna e evitar o desperdício; consumir, dentro do possível, produtos ecológicos; levar materiais eletrônicos descartáveis aos postos oficiais de coleta.
Sem muito esforço, é possível promover ações comunitárias no cuidado com as criaturas: organizar mutirões para coletar lixo nos bairros, nas vilas, às margens de rios e lagos e para plantar árvores em locais de degradação ambiental; proteger as nascentes; preservar e divulgar as sementes crioulas; motivar as comunidades eclesiais a fazer a separação do lixo em seus eventos e festas e destinar o óleo usado a entidades ou empresas que o transformarão em outros produtos; a Pastoral Social da Igreja pode se organizar e pressionar os municípios para que façam a coleta seletiva do lixo.
V. Grito profético ativo em favor do cuidado dos pobres que sofrem com as mudanças climáticas
Inspirados em São Francisco, que tipos de ações podem ser desenvolvidos em relação aos pobres que estão sujeitos às consequências das mudanças climáticas? Essas ações dizem respeito aos pobres que moram em áreas de risco, aos que vivem em bairros periféricos e aos que moram no meio rural.
A Pastoral da Moradia e Favela expressa o espírito de São Francisco no cuidado dos pobres que mais sofrem com as mudanças climáticas e no amor solidário a todos os que sofrem por não terem uma moradia digna e os serviços essenciais do poder público. Ela foi iniciada no Rio de Janeiro em 1976. No entanto, só a partir da Semana Social Brasileira )2021-2023), começou a ser implantada, com o apoio da CNBB, em nível nacional. Com a Campanha da Fraternidade de 2026, cujo tema é “Fraternidade e Moradia”, ela está recebendo novo impulso. Sua missão é “ser presença fraterna, comprometida, profética e evangelizadora junto aos sem-teto, às comunidades periféricas, estando ao lado de quem vive em áreas de risco, cortiços, ocupações, vilas, favelas e conjuntos habitacionais populares, dos que comprometem sua renda com o aluguel e dos que moram de favor, para a garantia do direito à moradia”.
A organização da Pastoral da Moradia e Favela é inadiável nas áreas de risco e nos territórios periféricos mais sensíveis às mudanças climáticas. Ela age em colaboração com outras pastorais, organizações e movimentos populares, com religiões comprometidas com os direitos dos pobres e com os moradores dos territórios, tendo em vista sua organização, mobilização e formação. Para que ela seja viabilizada, é indispensável articular, organizar e capacitar lideranças pastorais e locais, a partir da educação e da espiritualidade profética libertadora.
A Pastoral da Moradia e Favela segue o seguinte processo em sua implementação: 1) visitas permanentes às pessoas da periferia; 2) escuta e diálogo a partir dos anseios, necessidades e urgências; 3) atuação e trabalho conjunto com outras pastorais e movimentos; 4) garantia de momentos de reflexão, oração e compreensão dos direitos, entre outros; 5) fortalecimento das lutas já existentes; 6) promoção da educação popular e da cultura da periferia; 7) integração da espiritualidade cristã libertadora.
Para que a Pastoral da Moradia e Favela seja mais eficaz, precisa conhecer, acompanhar e se envolver com os projetos do Ministério das Cidades para as áreas de risco: o Projeto AdapAÇÃO, cuja finalidade é apoiar dezenas de municípios a integrarem o clima às leis locais; o Projeto Cidades Verdes Resilientes. Seu foco é ajudar os municípios a combater os impactos das mudanças climáticas e a eles se adaptar, sem descuidar da justiça socioambiental e da infraestrutura sustentável; e o Programa Periferias Verdes Resilientes. Neste último, a população dos territórios atua diretamente na projeção e execução das melhorias socioambientais, como hortas comunitárias, arborização de ruas e contenção verde de encostas para evitar deslizamentos. Além disso, ela participa do processo que decide a aplicação dos recursos federais na resiliência do próprio bairro diante das mudanças climáticas.
A Pastoral da Moradia e Favela também precisa conhecer e assimilar a missão da Defesa Civil. Ela tem a finalidade de antecipar os riscos, monitorar os perigos, alertar a população, coordenar a retirada das pessoas, organizar abrigos e atuar durante os eventos severos, com a colaboração dos serviços do município e do poder público em nível estadual e federal.
Há áreas de risco que não têm outra saída a não ser serem abandonadas. Nessa situação, a Pastoral da Moradia e Favela tem um papel essencial: garantir que as famílias sejam ouvidas, opinem e decidam, junto com o poder público, sobre o local da nova moradia, o tipo de casa, a infraestrutura, o acesso às políticas públicas etc.
Enquanto as famílias permanecem nos locais de risco, a Pastoral da Moradia e Favela, em sintonia com a Pastoral Social, é convidada a realizar gestos concretos de solidariedade, segundo as necessidades dos que vivem naquele território. Além disso, deve exigir que o poder público faça sua parte por meio de suas políticas públicas em favor das famílias necessitadas, principalmente porque são elas as mais atingidas pelos eventos climáticos intensos.
Conclusão
Para que o cuidado com as criaturas e com os pobres atingidos pelas mudanças climáticas seja mais eficaz, faz-se necessário cultivar a espiritualidade ecológica franciscana por meio de retiros, encontros e cursos. Ela é uma luz para avaliar, do ponto de vista espiritual, as causas das mudanças climáticas e encontrar saídas viáveis para cuidar melhor de todas as criaturas e dos pobres afetados pelas consequências das mudanças climáticas.
As mudanças climáticas têm relação com a economia, com a política, com a cultura e com a religião. Elas se tornam, também, uma questão espiritual na medida em que nossa relação com Deus interfere em nossa relação com as criaturas e com os pobres. Se nossa relação com Deus é a de que Ele é o Criador de tudo e nos deu todas as coisas para delas usufruirmos como objetos, nós as exploraremos ao máximo. Porém, se nossa relação com Deus é como a de São Francisco, em que Ele é concebido como Pai de todas as criaturas, nossa relação com elas é de fraternidade, cuidado e amor. Reconhecemos que elas têm o direito de se regenerar e de existir para que possam continuar a servir ao ser humano e às gerações futuras.
Como nos recorda o Papa Francisco na Laudato Sí, “não há duas crises separadas: uma ambiental e outra social, mas uma única e complexa crise socioambiental” (139). Assumir essa consciência significa reconhece que o clamor da Terra e o clamor dos pobres exigem de nós novas atitudes, novas relações e um compromisso concreto na defesa da vida, principalmente, dos pobres da Casa Comum.
Frei Flávio Guerra, OFM


