Como ser instrumento de paz hoje, inspirado em São Francisco de Assis.
São Francisco de Assis viveu em uma época marcada por muita violência (1181-1226). O mundo feudal, em declínio, estava em conflito com o sistema burguês, em ascensão. A Igreja, por sua vez, vivia em conflito com grupos considerados heréticos e

com os muçulmanos. As partes envolvidas nesses conflitos não buscavam soluções pacíficas, mas recorriam a agressões e combates armados.
Nesta situação, Francisco, na contramão da Igreja e da sociedade do seu tempo, decidiu ser um instrumento de paz. Ele se inspirou no modo pacífico de ser e de viver de Jesus Cristo, que esvaziou-se de sua glória divina para se colocar a serviço de uma vida abundante para todos (Jo 10,10): acolhia e perdoava os pecadores; amava e rezava pelos seus adversários e pelos seus inimigos; dialogava com seus discípulos e com as pessoas de boa vontade; vivia a solidariedade com os doentes, os famintos, e os portadores de deficiência física; por fim, entregou voluntariamente sua vida na cruz pela redenção da humanidade.
Ao refletirmos sobre o modo pacífico de Francisco, inspirado em Jesus, podemos tirar várias lições para nos tornarmos instrumentos de paz no atual contexto marcado por diferentes formas de violência: física, psicológica, verbal, socioeconômica e religiosa. Entre as contribuições de São Francisco para a promoção da paz destacamos, nesse texto, quatro atitudes: evitar discussões improdutivas com quem se mostra indisposto a rever suas opiniões; dialogar com quem deseja ampliar seus conhecimentos; praticar o amor solidário para com os pobres e vulneráveis da sociedade; reconhecer as próprias limitações, sabendo pedir perdão e perdoar.
Uma primeira lição consiste em evitar discussões improdutivas com pessoas fanáticas que se mostram indispostas a reconsiderar suas opiniões. Esse tipo de confronto dificilmente contribui para uma reflexão construtiva, pois, quando alguém se fecha completamente ao seu ponto de vista, torna-se difícil estabelecer um diálogo profundo. Isso não significa fugir do debate, nem deixar de expor as próprias convicções, mas sim reconhecer quando não há condições de desenvolver um diálogo respeitoso e produtivo.
Outra atitude significativa é dialogar com quem está disposto a enriquecer sua reflexão sobre determinado assunto e a aprender com os outros. O primeiro passo é escutar atentamente o outro, procurando entender seu ponto de vista. Em seguida, cada pessoa pode apresentar as razões que sustentam sua posição. O diálogo amadurece quando os que dialogam se dispõem a considerar as contribuições recebidas e, se necessário, a rever seus próprios pontos de vista. O objetivo do diálogo não é simplesmente vencer um debate, mas construir uma compreensão mais rica e aprofundada do assunto em questão. Assim, os participantes ampliam seus conhecimentos e enriquecem sua compreensão do tema em discussão.
A solidariedade também é um caminho indispensável para a construção da paz. Quando a pessoa deixa de girar ao redor do próprio umbigo e se coloca, de forma organizada e permanente, a serviço dos doentes, das pessoas idosas, dos empobrecidos, dos migrantes e dos imigrantes, dos presos, dos desempregados, contribui para derrubar os muros da desigualdade social e da indiferença. Ao mesmo tempo, ajuda a construir pontes de inclusão social que promovem a dignidade humana, favorecem relações mais fraternas e contribuem para edificar uma sociedade mais justa e pacífica.
Outra atitude fundamental é tomar consciência de que ninguém é perfeito. Todas as pessoas, com maior ou menor frequência, podem ofender as outras por meio de palavras, atos, gestos e omissões. Uma das melhores formas de curar as feridas provocadas pelas ofensas e de restabelecer a paz é praticar o perdão e buscar a reconciliação. Às vezes, esse é um processo difícil, porém possível com a ajuda de Deus por meio da oração perseverante, da meditação da Palavra de Deus, da comunhão eucarística e do amor solidário. Quando o perdão se torna realidade, ele proporciona alívio à mente, ao corpo e ao espírito, além de restaurar relações abaladas.
Ao agir do jeito franciscano diante dos conflitos de toda ordem, o ser humano torna-se instrumento de paz na sua família, na sua comunidade eclesial e nas suas relações sociais. Isso exige, com a graça de Deus, o compromisso diário na escuta atenta do outro e no cultivo do diálogo respeitoso, produtivo e enriquecedor; renunciar à indiferença diante do sofrimento alheio e praticar a solidariedade com os “crucificados” de uma sociedade desigual; reconhecer com humildade as próprias fragilidades e limitações; e transformar a ofensa em oportunidade de reconciliação.
Frei Flávio Guerra, OFM


