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O SÍNODO PARA A AMAZÔNIA – UM OLHAR

UMA REFLEXÃO SOBRE OS CAMINHOS DA IGREJA PÓS-SÍNODO PARA AMAZÔNIA

O Sínodo foi um precioso instrumento de comunhão eclesial e de escuta. Essa ferramenta de consulta oferecerá ao Papa Francisco algumas reflexões e propostas em vista de “novos caminhos para a Igreja e para uma ecologia integral”.

Antes de falarmos sobre o evento em si, gostaria de fazer uma pequena memória do processo de construção do Sínodo, pois nos dará uma visão da ampla mobilização e participação dos rostos e culturas presentes na Pan-Amazônia.

Convocado em outubro de 2017, o Sínodo foi uma resposta do Papa Francisco à realidade da Pan-Amazônia, que hoje contempla 9 países diferentes e soma mais de 30 milhões de habitantes. De acordo com Francisco, o objetivo principal desta convocação é identificar novos caminhos para a evangelização daquela porção do Povo de Deus, especialmente dos indígenas, frequentemente esquecidos e sem perspectivas de um futuro sereno, também por causa da crise da Floresta Amazônica, pulmão de capital importância para nosso planeta.

A metodologia usada para a construção do Instrumento de Trabalho foi de escuta às realidades. Mais de 90 mil pessoas, entre povos indígenas, comunidades quilombolas, ribeirinhos, pescadores, quebradeiras de coco e demais comunidades, participaram de pequenas assembleias, seminários com o objetivo de refletir a realidade eclesial e social local e apontar caminhos. Desse amplo processo de escutas nasceu o Instrumento de Trabalho.

Pois bem, como afirmou o Papa Francisco no Angelus do domingo passado (27/10), "o grito dos pobres, junto com o grito da terra, chegou da Amazônia até nós”. Por que? Porque além dos padres sinodais e os peritos e assessores, estavam lá indígenas, mulheres, líderes de comunidade, levando consigo a concretude da sua experiência de Fé.

Como no corpo temos dois pulmões para respirar, também o Sínodo da Amazônia mostrou seus dois pulmões: o primeiro, a 'Evangelii Gaudium', documento que marca a virada missionária que o Papa Francisco está a imprimir a toda a vida da Igreja; trata-se de compreender que a missão é a vida da Igreja, e que a própria Igreja existe para evangelizar. O segundo, a «Laudato Si'». E sabemos que esse Documento procura nos conscientizar acerca da situação verdadeiramente crítica da nossa mãe terra nestes primeiros decênios do Terceiro Milênio. Parece-me necessário, antes de pegar no Documento final do Sínodo sobre a Amazônia, reler com atenção a «Evangelii Gaudium» e a «Laudato si'». Só assim podemos ter realmente um quadro de referência que nos ajude a tornar praticável uma "conversão integral", isto é, que toca todos os aspectos da nossa humanidade. Todos. Sem exceção.


Por outro lado, o Documento Final do Sínodo parte realmente do conceito de "conversão integral": “Como Igreja de discípulos missionários, imploramos a graça dessa conversão que "implica deixar escapar todas as conseqüências do encontro com Jesus Cristo nas relações com o mundo ao seu redor" ( LS 217); uma conversão pessoal e comunitária que nos compromete a relacionar-se harmoniosamente com a obra criativa de Deus, que é a "casa comum"; uma conversão que promove a criação de estruturas em harmonia com o cuidado da criação; uma conversão pastoral baseada na sinodalidade, que reconhece a interação de tudo criado. Conversão que nos leva a ser uma Igreja cessante que entra no coração de todos os povos da Amazônia”. (Doc. Final nº 18). E tudo “alimentado por uma espiritualidade mística no estilo de São Francisco de Assis, um exemplo de conversão integral vivida com alegria e alegria cristã (cf. LS 20-12)” (Doc. Final nº 17). Só depois o desenvolve nos quatro capítulos seguintes, isto é, em nível pastoral, cultural, ecológico, sinodal.

Destaco alguns temas debatidos e aprovados pelos Padres Sinodais:


a) As dores da Amazônia: o grito da terra e o grito dos pobres - O documento traz presente as muitas dores e violências que hoje ferem e deformam a Amazônia, ameaçando sua vida: a privatização de bens naturais; modelos de produções predatórias; desmatamento que atinge 17% de toda a região; a poluição das indústrias extrativistas; mudanças climáticas; narcotráfico; alcoolismo; tráfico de seres humanos; a criminalização de líderes e defensores do território; grupos armados ilegais. É extensa a página amarga sobre migração, que na Amazônia articula-se em três níveis: mobilidade de grupos indígenas em territórios de circulação tradicional; deslocamento forçado de populações indígenas; migração internacional e refugiados. Para todos esses grupos, é necessário um cuidado pastoral transfronteiriço capaz de incluir o direito à livre circulação. O problema da migração, lê-se, deve ser enfrentado de maneira coordenada pelas Igrejas de fronteira. Além disso, um trabalho pastoral permanente deve ser pensado para os migrantes vítimas do tráfico de pessoas. O Documento sinodal convida a prestar atenção ao deslocamento forçado de famílias indígenas nos centros urbanos, sublinhando como esse fenômeno requer uma “pastoral conjunta nas periferias”. Daí a exortação à criação de equipes missionárias que, em coordenação com as paróquias, cuidem desse aspecto, oferecendo liturgias inculturadas e favorecendo a integração dessas comunidades nas cidades.


b) Conversão pastoral e a questão dos ministérios- a referência à natureza missionária da Igreja também é central: a missão não é algo opcional, lembra o texto, porque a Igreja é missão e a ação missionária é o paradigma de toda obra da Igreja. Na Amazônia, ela deve ser “samaritana”, ou seja, ir ao encontro de todos; “Madalena”, ou seja, amada e reconciliada para anunciar com alegria o Cristo ressuscitado; “Mariana”, ou seja, geradora de filhos para a fé e “inculturada” entre os povos a que serve. É importante passar de uma pastoral “de visita” a uma pastoral “de presença permanente”. Nesse sentido, há que se pensar os ministérios, a formação do laicato, a participação das mulheres e dos jovens. Não se deseja uma Igreja clericalista e sacramentalista, mas comprometida com uma evangelização séria, autêntica e contínua. Por isso, o primeiro e mais importante é uma evangelização integral. Onde todos os aspectos pastorais da missão estão presentes de maneira harmoniosa e equilibrada, onde tudo tem a ver com tudo: o kerygma (a alegre proclamação de Jesus Cristo), a catequese (não como doutrinação, mas como um paciente processo catecumenal que entrelaça o evangelho com a vida e cultura amazônica); a diaconia (milhares de serviços, como expressão de uma caridade criativa e comprometida que nasce da fé); a koinonia (criação de comunidades fraternas em torno da fé e da Palavra), a liturgia (uma comunidade que celebra com alegria a sua fé). Sem processos de evangelização integral, não somente não haverá vocações, mas não haverá cristãos, ou pelo menos católicos. Uma Igreja criativamente ministerial, ou seja, criativa na promoção e no protagonismo dos ministérios nas comunidades: ministérios enraizados no compromisso batismal, para homens, mulheres, jovens, para diferentes circunstâncias e áreas pastorais. Uma comunidade rica e fecunda desses ministérios ordenados ou laicais: diaconato permanente, leitores, anunciadores, ministros das celebrações, contadores de histórias, comentadores da Palavra, exorcistas, ministros da esperança (funerais), catequistas, animadores juvenis, missionários, servos dos pobres, etc. Somente quando esse dinamismo pastoral e eclesial é vivido torna-se possível pensar em novos passos ministeriais, como o que propõe o º 111, de estabelecer critérios e regras por parte da autoridade competente, para ordenar sacerdotes homens idôneos e reconhecidos pela comunidade, que tenham um diaconato permanente fecundo e recebam uma formação adequada para o presbiterado, permitindo ter uma família legitimamente constituída e estável, para promover a vida da comunidade cristã através da pregação da Palavra e da celebração dos sacramentos nas áreas mais remotas da região amazônica.


c) Papel da Vida Religiosa Consagrada - O Sínodo aposta ainda numa vida consagrada com rosto amazônico, a partir de um reforço das vocações autóctones: entre as propostas, se destaca o caminhar junto aos pobres e excluídos. Pede-se ainda que a formação seja centralizada na interculturalidade, inculturação e diálogo entre as espiritualidades e as cosmovisões amazônicas.


d) Defesa da Vida e aliada das comunidades amazônicas - O Documento reafirma o empenho da Igreja em defender a vida “desde a concepção até o seu fim” e em promover o diálogo intercultural e ecumênico para conter as estruturas de morte, pecado, violência e injustiça. Conversão ecológica e defesa da vida na Amazônia se traduzem para a Igreja em um chamado a “desaprender, aprender e reaprender para superar qualquer tendência a assumir modelos coloniais que tenham causado danos no passado”. O apelo é à responsabilidade: todos somos chamados à custódia da obra de Deus. Os protagonistas do cuidado, proteção e defesa dos povos são as próprias comunidades amazônicas. A Igreja é sua aliada, caminha com eles, sem impor um modo particular de agir, reconhecendo a sabedoria dos povos sobre a biodiversidade contra todas as formas de biopirataria. Pede-se que os agentes pastorais e os ministros ordenados sejam formados a esta sensibilidade socioambiental.

Enfim, foi uma grande oportunidade para refletir pastoralmente sobre a Amazônia, sobre os grandes desafios de caráter universal. Há muitos outros temas refletidos na Assembleia Sinodal e que se fazem presentes no Documento Final. Vale lê-lo!

O Sínodo, sabemos, é um "caminhar juntos". Saber isso é importante para superar as polêmicas estéreis que enchem as manchetes dos jornais. Para além das propostas e sugestões contidas no Documento Final, é importante reconhecer que este Sínodo ainda não se concluiu. Mas inaugurou processos que devem necessariamente continuar.


Frei Olavio José Dotto, ofm

Assessor da Comissão para a Ação Social Transformadora CNBB

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