• Franciscanos do RS

3º DOMINGO DO ADVENTO


Liturgia da Palavra: Is 35, 1-6a.10; Sl 145; Tg 5, 7-10; Mt 11, 2-11

Tema-mensagem: Alegrai-vos porque o Senhor está perto.

Sentimento: júbilo


Introdução

Quanto mais próximo o Natal, maior a alegria. Por isso, a celebração de hoje é toda perpassada por esta convocação do apóstolo Paulo: “Alegrai-vos sempre no Senhor! De novo vos digo: alegrai-vos! O senhor está perto” (Cf. Ant. da Entrada). Por isso, também, este 3º domingo do Advento é chamado pela tradição católica de “Dominica Gaudete”, isto é, “O Domingo da alegria”.


1. Isaias o profeta da alegria universal (Is 35, 1-6a.10)

Isaias, João Batista e Maria são os personagens bíblicos que melhor nos ajudam a penetrar de modo mais apropriado e fervoroso no mistério da parousía, isto é, da vinda do Senhor, tanto da primeira que celebramos, sempre de novo, em cada Natal, quanto da segunda quando voltará glorioso, na consumação de todas as coisas.

A liturgia da Palavra de hoje, começa com a insistente convocação de Isaías à grande alegria. A visão do profeta se volta para o futuro do Povo de Deus e, ao mesmo tempo, para o últio0mo o definitivo. No futuro de Israel vê o retorno do exílio. No último, no definitivo, vê a alegria messiânica, isto é, aquela que será o dom dos tempos messiânicos. Ele usa o verbo “gaudete” que, mais que alegria, significa gáudio, júbilo. Trata-se da alegria daqueles que põem a sua esperança em Deus. Santo Agostinho, no livro X das Confissões (n. 22), meditou sobre a busca de Deus e chega à seguinte conclusão: “Há, pois, um gáudio, que não é dado aos ímpios, mas aos que te querem bem gratuitamente, para os quais tu mesmo és o gáudio. E a vida feliz é essa mesma, alegrar-se junto de ti, a partir de ti, por amor de ti: é essa e não há outra”.

Esta alegria, porém, em vez de subjetiva é cósmica. Por isso, Isaias anuncia a transformação do deserto da Síria em um lugar verdejante, cheio de árvores frondosas, de ervas e flores, glorioso como o Líbano, esplendoroso como o Monte Carmelo, fértil e florido como a planície do Sharón. A região desértica se transforma com a passagem dos exilados que retornam a Jerusalém: de lugar de desolação a lugar de consolação; de lugar de tristeza e morte a lugar de alegria e vida: “Alegrem-se o deserto e o descampado. Rejubile e floresça a terra árida. Cubra-se de flores como o narciso, exulte com brados de alegria (Is 35, 1).

Isaias, porém, faz questão de ir à raiz deste júbilo: a vinda do próprio Deus, o Amado que procura a sua Amada, o homem: “Fortalecei as mãos fatigadas e robustecei os joelhos vacilantes. Dizei aos corações perturbados: ‘Tende coragem, não temais: Aí está o vosso Deus. Vem para fazer justiça e dar a recompensa. Ele próprio vem salvar-nos’ (Is 35, 3-4).

Além do mais, faz questão de, também, apontar para os sinais que acompanham a vinda do Deus salvador: obras estupendas, extraordinárias, maravilhosas. E conclui: “Então se abrirão os olhos dos cegos e se desobstruirão os ouvidos dos surdos. Então o coxo saltará como um veado e a língua do mudo cantará de alegria”.


2. João Batista o profeta que é mais que profeta (Mt 11, 2-11)

O personagem central, porém, da liturgia de hoje é o Batista (batizador), cujo nome, João, significa “Deus gracioso”, “Deus misericordioso”. Ora, nomen est omen, isto é, nome é presságio, destino. E o indício do nome de João se cumpre a seu tempo. Ele participa de modo privilegiado da alegria da vinda do Deus Salvador, experimentando na própria alma que o Senhor é gracioso, é favorável, faz misericórdia com o seu povo. Na visitação de Maria, grávida de Jesus, a Isabel, ele, ainda no ventre de sua mãe, salta de alegria (Lc 1, 41). Muitos se alegraram com o seu nascimento, pois, nascido de uma anciã estéril, foi considerado um sinal maravilhoso deste favor divino. Ele era o “amigo do Esposo”, que se alegrava com a sua vinda, e com as núpcias, que estavam perto de se consumar. Veio com o espírito e o poder de Elias (Lc 1, 17). Dele Jesus disse: “É o Elias que deve vir” (M6 11, 14) e a tradição franciscana, que gosta de comparar São Francisco com João Batista, diz que ele, como este, fora enviado ao mundo “in spiritu Eliae”, isto é, “no espírito de Elias” para preparar no deserto o caminho da mais alta Pobreza e a pregar a penitência (LM Pró).

a. Quem é Aquele que devemos esperar?

No evangelho de hoje João se encontra na prisão. Ele ouvira falar das obras de Cristo. E mandou-lhe dois de seus discípulos para perguntar: “És tu o Vindouro ou devemos esperar outro?” Jesus respondeu-lhes: “Ide contar a João o que vedes e ouvis: os cegos veem, os coxos andam, os leprosos são curados, os surdos ouvem, os mortos ressuscitam e a boa nova é anunciada aos pobres. E bem-aventurado aquele que não encontrar em Mim motivo de escândalo” (Mt 11,4-6).

Causa estranheza que João tenha mandado seus discípulos fazerem essa pergunta. Estaria ele duvidando que Jesus seria o Messias? Esperava ele um juiz poderoso, para dar cabo da ira de Deus, e, ao contrário, tinha vindo um servo manso, para tomar sobre si o pecado dos homens? Os Padres da Igreja se recusam a ler neste episódio uma hesitação de João. Afinal, ele mesmo não anunciara Jesus como o “Cordeiro de Deus”, como o Servo inocente e manso, que toma sobre si o pecado dos homens para carregá-los como seus? Eles preferem, antes, ver uma hesitação dos discípulos de João. Estes sim, ainda não entendiam o modo de ser de Jesus e dos seus discípulos.

b. Mais por obras do que por palavras

Assim, João Batista tinha em mira não a sua própria ignorância, dúvida, hesitação e falta de fé, mas a dos discípulos seus. É significativo que Jesus, à pergunta se ele era “o Vindouro”, não responde diretamente, dizendo: “eu sou”. Esta resposta talvez recrudesceria ainda mais os discípulos de João na incredulidade. Por isso, Ele responde, aludindo às obras que fazia: “Os cegos veem, os coxos andam, os leprosos são curados, os surdos ouvem, os mortos ressuscitam e a boa nova é anunciada aos pobres” (Mt 11, 5). Jesus responde, assim, aos discípulos de João mostrando os sinais dos tempos messiânicos anunciados por Isaias.

c. Feliz aquele que não se escandaliza perante Jesus

A estas alusões Jesus acrescenta as palavras: “Bem-aventurado é aquele que não se escandalizar de mim” (Mt 11, 6). Frente a Jesus só há duas possibilidades ou posicionamentos: crer ou se escandalizar. Kierkegaard dizia que o amor é sempre alegria, sobretudo se é sacrifício, e que assim era o amor de Cristo. Mas havia uma sombra de tristeza no amor de Cristo pelos homens. Era a tristeza de não poder abolir a possibilidade do escândalo. Ele é o Rei, o Deus Salvador. Mas, prefere apresentar-se como o servo, como “um homem de nada”, pobre, manso, humilde. O escândalo não viria, pois, das obras estupendas que ele fazia, dos milagres, mas do seu modo de ser e de se apresentar, como o servo, o servidor de todos os homens, especialmente dos últimos deles. O motivo de escândalo se potencializaria ainda mais frente à sua aparência aniquilada na Cruz. Ele seria um escândalo – uma pedra de tropeço – para muitos em Israel ao se deixar suspender na Cruz (cfr. Paulo: 1 Cor 1, 23). Ele seria uma demência para muitos que buscavam a sabedoria também entre os gentios. Por isso, para Santo Ambrósio, os dois discípulos de João estavam ali no lugar das duas partes da humanidade – os judeus e os gentios – que estavam e estão sempre na iminência de uma decisão, frente a Jesus: crer ou escandalizar-se (tropeçar). Ora, para os que creem – o crente, o fiel - Cristo se torna uma pedra de fundamento, sobre a qual constrói, edifica, a sua existência.

Além do mais, para tirar toda suspeita acerca da fidelidade de João, Jesus dirige-se às multidões com as famosas interpelações: “O que fostes ver no deserto ... ?” (Cf. Mt 11,7-11) e com a seguinte conclusão: “Em verdade vos digo: Entre os filhos de mulher, não apareceu ninguém maior do que João Batista. Mas o menor no reino dos Céus é maior do que ele” (Mt 11, 7-11).

d. João Batista é grande porque mostra o Salvador em pessoa e porque faz-se menor em sua humildade.

João não era um homem volúvel, que se inclina para lá e para cá, ao sabor das circunstâncias – uma “cana agitada pelo vento”. Inveja, vanglória, comodismo, moleza e conivência com os poderosos deste mundo que pudessem manchar ou trair sua missão, nem pensar. Era um homem não só de hábito, mas também de hábitos de profeta. Um homem não domesticável, não influenciável, pelo poder. João era um profeta! Um grande profeta! Mais ainda: ele transbordava, ultrapassava, transcendia a medida dos profetas. Com efeito, ele não somente predisse o Vindouro, mas também o anunciou presente e o apontou. Ele era o “Anjo” (Ángelos = nuntius), o mensageiro, o anunciador, que seria enviado indo à frente e em frente, diante da face (pro prosópou) do Deus Vindouro. Ele seria aquele servo do Rei que lhe estaria mais próximo; aquele que vinha para anunciar a proximidade do Vindouro e preparar-lhe o caminho de sua chegada junto dos homens.

“Dentre os filhos de mulher, não surgiu ninguém maior do que João, o Batista”. Os Padres da Igreja, ao ler esta passagem, fazem o contraste: maior do que João era o próprio Jesus Cristo, nascido de uma mulher, que era virgem, e do Espírito Santo. O mesmo sentido eles leem na declaração: “o menor no Reino dos céus é maior do que ele”. Jesus é, ele mesmo, o menor no Reino dos céus. João era grande – era o maior entre os homens da antiga aliança, por causa de sua humildade. Mas a humildade de Cristo – o Rei do reino dos céus –, que inaugura um novo povo, na nova aliança selada no seu sangue, era maior do que ele. Humildade é o homem se encontrar no seu lugar, na verdade de sua vocação. João não se colocou a si mesmo como o Esposo, mas como o amigo do Esposo. Não se colocou a si mesmo como o Rei, mas como o arauto do Rei. Não se colocou a si mesmo como o Senhor, mas como o servo, ainda menos do que um servo, pois não se cria digno nem mesmo de tirar as sandálias do Cristo. A sua humildade era também o segredo de sua alegria.

João é o maior entre os nascidos de mulher por ser o menor, o mais humilde, dentre eles. Mas não é maior do que o nascido da Virgem, nem do que a Virgem ela mesma, a Theotokos, a mãe, geradora de Deus, que se fizera a “serva do Senhor”, a partir do seu “fiat”. São João Crisóstomo diz: o menor, aqui, no Reino dos céus, é o próprio Cristo, o servidor da terra. Por isso, a grandeza da humildade de João se retrai, ante a grandeza da humildade da Virgem-Mãe e de Jesus mesmo. Conta São Gregório Nisseno que Lucifer caiu do céu porque se recusou a aceitar o homem criado à imagem e semelhança de Deus. Na literatura islâmica, diz-se que Lucifer se recusara a servir, por ordem de Deus, a Adão. Nada é mais diabólico do que a soberba. Nada é mais divino do que a humildade. E João, Maria e Jesus são, conjuntamente, como num tríptico, a manifestação de toda a grandeza da humildade. Aqueles que se firmam na sua soberba caem, tropeçam, se escandalizam ante ao Deus de Nosso Senhor Jesus Cristo e a Ele mesmo. Os que são humildes, pelo contrário, nele se erguem e se edificam.


3. Firmes na espera do Senhor (Tg 5, 7-10)

Todo o Antigo Testamento vem perpassado por uma mística que envolve o binômio “rico-pobre”. O rico, se não se converter, no dia do juízo será condenado e o pobre salvo. Por isso, Tiago, na leitura de hoje, aproveitando desta espiritualidade muito forte entre os antigos judeus, exorta os cristãos a ficarem firmes até a vinda do Senhor. Assim, aproveitando o exemplo do agricultor, por duas vezes, insiste a que fiquemos pacientes e firmes na espera da vinda do Senhor. O cristão precisa manter-se nesta paciência e nesta firmeza, sabendo que não irá demorar o seu encontro com o Deus Vindouro: “a vinda (parousía) do Senhor está próxima... o juiz está às portas”.


Conclusão

Hoje, diante de uma humanidade com seus corações desertificados, nosso Papa insiste para que “não deixemos que nos roubem a esperança e a alegria do Evangelho” (EG 83 e 86.6); que sejamos pessoas de fé capazes assim de indicar o caminho da Terra Prometida com nossas próprias vidas (EG 86). Por isso, precisamos aprender a viver com Deus sem Deus, na certeza, na fé de que Ele, sempre de novo, está vindo a nós, a todos os homens - queridos do Pai - e a todas as criaturas como outrora veio e se fez presente através da Virgem Maria.


Fraternalmente,

Marcos Aurélio Fernandes e Frei Dorvalino Fassini

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