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Carta do Ministro Geral para o Domingo da Palavra de 2026: Desligue para ouvir - O método do Beato Frei Gabriele Allegra

  • 3 de jan.
  • 6 min de leitura

A todos os Irmãos da Ordem

Às Irmãs Clarissas e Concepcionistas

Às Irmãs Franciscanas filiadas à Ordem

Aos Leigos e Leigas Franciscanas

 

Queridos irmãos e irmãs,

Que o Senhor lhes dê paz!

 

Neste ano de 2026 (o oitavo centenário da morte de nosso pai São Francisco), o Domingo da Palavra cai em 26 de janeiro: a mesma data do quinquagésimo aniversário da morte do Beato Frei Gabriele M. Allegra (1907-1976), Frade Menor, missionário na China e apóstolo da Palavra de Deus em uma cultura antiga.


Esta feliz coincidência me dá a oportunidade de recordar com gratidão sua vida e sua obra. Sua vida é um testemunho profético que ilumina o desafio de ouvir a Bíblia na era digital. Não apenas nos lembramos do que ele fez — a tradução completa da Bíblia para o chinês após vinte e seis anos de intenso trabalho — mas também queremos escutar seu método e seu espírito, que continuam a falar com particular poder.


A Constituição Dogmática do Concílio Vaticano II, Dei Verbum (1965), nos lembra que “o Deus invisível fala aos homens como amigos, movido por seu grande amor, e habita entre eles” (DV 2). Foi esse encontro que o Beato Allegra promoveu incansavelmente: aproximar a Palavra de Deus das pessoas com quem escolheu viver, utilizando os meios à sua disposição.


Hoje em dia, temos muitas maneiras de “escutar” a Palavra de Deus: podcasts bíblicos, aplicativos para leitura diária, inteligência artificial que lê e explica as Escrituras e versículos que circulam nas redes sociais. No entanto, enfrentamos um paradoxo: a escuta autêntica da Palavra de Deus parece cada vez mais rara. O ruído digital preenche todos os espaços, a velocidade não deixa tempo para a profundidade e os algoritmos nos aprisionam em bolhas que apenas confirmam o que já pensamos.


Como podemos retornar a uma forma de escutar que não "consome" a Palavra, mas a acolhe e permite que ela transforme nossas vidas? O testemunho do Beato Allegra pode nos guiar.

 

1. Um mestre inesperado: Beato Gabriele Allegra


Em 29 de setembro de 2012, Gabriele Maria Allegra (1907-1976), um frade menor siciliano, foi beatificado. Sua vida oferece uma luz que ilumina nossas perguntas. Em 1930, recém-ordenado sacerdote, o Frei Gabriele Maria partiu para a China com um sonho impossível: traduzir toda a Bíblia para o chinês. Disseram-lhe que era loucura: a língua chinesa não tem alfabeto, apenas ideogramas, e seria “impossível” traduzir as Escrituras. Mas ele não desistiu.


Estudar, orar, escutar

 

Ele aprendeu chinês em quatro meses. Compreendeu imediatamente que não bastava conhecer o idioma. Era preciso “pensar como um chinês”. Assim começou uma jornada de 26 anos — vinte e seis anos! — de imersão total na cultura chinesa, sempre com a Bíblia em uma mão e a oração na outra.


Em 1945, em Pequim, fundou o Estudo Bíblico Franciscano, reunindo estudiosos chineses e italianos. Não era apenas um empreendimento acadêmico, mas um lugar de escuta em oração: “Ó Palavra Eterna”, orava durante seus exercícios espirituais em 1944, “quero passar minha vida ouvindo-te!” Trabalhou na pobreza, sob os bombardeios da guerra. Em 1948, teve que fugir para Hong Kong. Perseverou. Em 1968, no dia de Natal, finalmente publicou a Bíblia completa em chinês, que permanece até hoje a mais amada pelos católicos chineses. Não foi por acaso que ele próprio disse que “as Escrituras devem se tornar o Livro do Povo de Deus”.


O segredo? Ele nunca assinou a obra com seu próprio nome. Sempre: “Estudo Bíblico”. E toda a obra carregava a marca do trabalho em equipe, do esforço compartilhado em vez do individual.

 

2. Cinco Critérios para a atualidade

 

Da vida do Frei Allegra, emergem cinco critérios para ouvir a Palavra, que permanecem relevantes no mundo digital de hoje:


  1. SILÊNCIO DIANTE DA PALAVRA. O Beato Allegra orava antes de traduzir. O mundo digital nos bombardeia com conteúdo bíblico para compartilhar, publicar e disseminar. Mas: quando e como realmente ouvimos? Ouvir requer subtração, não adição. Desligar a tela para ouvir.

 

  1. PENSAR COMO O OUTRO. “Não se pode traduzir para o chinês sem pensar como um chinês”, disse ele. Hoje, os algoritmos nos aprisionam em bolhas onde só ouvimos o que confirma nossas ideias. A escuta bíblica, por outro lado, nos abre para o outro, nos tira de nós mesmos.

 

  1. TEMPO E GERMINAÇÃO. Vinte e seis anos para uma tradução é um desafio considerável na cultura do imediatismo. Na era do instantâneo, o Frei Gabriele Allegra testemunha que a Palavra não se consome rapidamente. Assim como uma mãe carrega seu filho por nove meses, a Palavra requer tempo, reflexão e paciência.

 

  1. COMUNIDADE ENCARNADA. Ele compreendeu imediatamente que não poderia fazer isso sozinho. Criou um “Grupo de estudos”, um espaço físico onde italianos e chineses trabalhavam juntos, oravam juntos e comiam juntos. O mundo digital nos isola diante das telas. A escuta bíblica exige comunidades corporificadas, corpos e rostos, não apenas um “curtir”.

 

  1. HUMILDADE DO TESTEMUNHO. Ele nunca assinou seu nome. Quando via um seminarista cansado, esfregava o chão com ele, algo que também fazia durante seu cativeiro. Na era das marcas pessoais e dos influenciadores religiosos, o Beato Allegra mostra que a Palavra clama por testemunhas humildes que não ofusquem a mensagem.

 

3. A Abertura Ecumênica da Palavra.

 

O Beato Allegra reconheceu com “santo zelo” o compromisso de seus irmãos e irmãs protestantes com a propagação da Bíblia na China. Seu trabalho não era apologético, mas sim de serviço: as Semanas Bíblicas e as Celebrações da Palavra em Macau, Hong Kong e Taiwan reuniram cristãos de diferentes denominações. Na era da polarização digital, onde as identidades correm o risco de se tornarem rígidas, ouvir a Palavra pode nos ajudar a redescobrir o que nos une, e não apenas o que nos divide.

 

4. Uma proposta concreta


Para o Domingo da Palavra de 2026, proponho que nos inspiremos em Allegra com três gestos simples:


TEMPO DE ESCUTA EM PAZ. Dedicamos um período específico e prolongado a um livro bíblico, lendo e orando sobre uma passagem a cada semana, permitindo que a Palavra cresça dentro de nós.

 

GRUPOS BÍBLICOS ALLEGRA. Promovermos ou renovarmos pequenos grupos de diferentes culturas, idades e sensibilidades que se reúnem em torno da Palavra, incluindo encontros presenciais pelo menos uma vez por ano, para romper com o isolamento e vivenciar a partilha incorporada.

 

JEJUM BÍBLICO DIGITAL. Antes de publicar um versículo, oremos. Antes de compartilhar a Palavra online, ouçamos em silêncio. Criemos espaços não saturados de notificações, ricos em silêncio e escuta, como o Frei Gabriele em seu gabinete, para não dispersar seu poder transformador.

 

Seguindo o ensinamento de Santo Agostinho, que o Beata Allegra gostava de recordar: “Eu mesmo não acreditaria no Evangelho se não fosse impelido a crer pela autoridade da Igreja Católica” (Contra a Epístola aos Maniqueus 5,6). Nossa escuta da Palavra está sempre situada dentro da comunidade eclesial. Como Allegra ensinou, é a Igreja que proclama a salvação através da pregação do Evangelho: é por isso que nossos grupos de estudo bíblico devem estar enraizados na vida litúrgica e comunitária.


 5. A profecia franciscana

 

Oito séculos antes, Francisco de Assis já havia personificado essa mesma abordagem à Palavra. Na Regra não aprovada, ele exortava os frades a cultivarem um coração fértil: “Cuidado para não sermos terra à beira do caminho, ou solo pedregoso, ou coberto de espinhos, como diz o Senhor no Evangelho: A semente é a palavra de Deus” (1R 22). Ele nunca foi “um ouvinte surdo do Evangelho” (1Cel 9,22), mas obediente a ele graças ao Espírito, que sopra vida na Palavra. Francisco meditava incessantemente na Palavra quando a ouvia, gravando-a indelevelmente em seu coração e pondo-a em prática com todo o seu corpo, até se tornar uma “língua” (1Cel 4,97) do próprio Evangelho. Quando, doente, não podia participar da Missa, pedia que lhe lessem o Evangelho do dia. Fez isso também antes de morrer, quando ouviu João 13, o lava-pés. Oito séculos depois, o Frei Gabriele M. Allegra atualizou essa mesma profecia franciscana. Quando faleceu em 1976, muitos o lamentaram. Mas sua obra continua a falar. A “Bíblia de Natal” (como é chamada) continua a levar a Palavra de Deus a milhões de chineses: em suas próprias palavras, este é “o tesouro que Cristo lhe confiou”.

 

Allegra nos convidou a tratar “a Sagrada Escritura quase como um sacramento, como — na suave expressão de Orígenes — a Palavra transformada em Livro: ὁ λόγος ἐμβίβλος”.

 

Seu método — silêncio, imersão cultural, tempo, comunidade, humildade — não se tornou obsoleto, mas representa uma chave para a era digital atual. O Beato Allegra traduziu a Palavra sem trair a Sagrada Escritura e a cultura chinesa; nós também somos chamados a fazer a Palavra de Deus ressoar no mundo digital de hoje.

 

Que o Domingo da Palavra de 2026 seja uma ocasião para:


OUVIR com um coração renovado o testemunho do Beato Gabriele Allegra;

 

REDESCOBRIR que, em meio ao ruído digital, a Palavra mais poderosa continua sendo aquela que nasce do silêncio, cresce com o tempo, é compartilhada na comunidade e transforma vidas;

 

PROCLAMAR hoje, também no âmbito digital, a Palavra que dá vida.

 

Que a Virgem Maria, mulher capaz de ouvir, nos sustente neste caminho, para que possamos acolher e gerar a Palavra na frágil carne da nossa humanidade.


 

“Nihil impossibile est oranti, laboranti et studenti”

“Nada é impossível para aqueles que rezam, estudam e trabalham.”

(Papa Pio XI ao Beato Allegra)


 

OREMOS. ESTUDEMOS. TRABALHEMOS. E, acima de tudo, ESCUTEMOS.

 

Desejo a você um feliz ano novo em 2026 e envio meus afetuosos cumprimentos  em São Francisco de Assis.


Roma, 03 de janeiro de 2026

Festa do Santíssimo Nome de Jesus


Frei Massimo Fusarelli, OFM

Ministro Geral



 
 
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