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SOLENIDADE DA IMACULADA CONCEIƇƃO

  • 6 de dez. de 2019
  • 6 min de leitura

MEDITAƇƕES FRANCISCANAS


Introdução

O dogma da Imaculada Conceição, bem como sua celebração litĆŗrgica e sua devoção popular, estĆ£o intimamente ligados Ć  Ordem franciscana e evidentemente Ć  pessoa de SĆ£o Francisco. Francisco, porĆ©m, nunca se dirigiu a Nossa Senhora explicitamente com os termos de ā€œImaculada Conceiçãoā€. Isto nĆ£o significa, porĆ©m, que este mistĆ©rio de Maria nĆ£o tenha sido, de certa forma, contemplado, amado, vivido e proclamado por ele.


1. Maria na origem da conversão e vocação de Francisco e da Ordem

Segundo os biógrafos dois eventos marcam o primado absoluto da conversĆ£o e da vida de Francisco: o encontro com Jesus Cristo atravĆ©s do Crucificado de SĆ£o DamiĆ£o e o encontro com o Evangelho do Envio dos Apóstolos. Aquele na igrejinha de SĆ£o DamiĆ£o e este na capelinha dedicada Ć  Virgem Maria, Nossa Senhora da PorciĆŗncula. Por isso, nĆ£o podemos estranhar que ele tenha tambĆ©m um relacionamento muito especial, prioritĆ”rio, filial e carinhoso para com a MĆ£e de Jesus. Foi, no aconchego desta igrejinha e da Virgem Maria que se aclarou, se consumou o sentido maior, a paixĆ£o, o ā€œtudoā€ de sua nova vida. Foi naquela igrejinha que teve inĆ­cio a Ordem dos Menores, e sobre ela se ergueu, como em sólido fundamento, sua nobre estrutura de inumerĆ”vel multidĆ£o. Por isso, o Santo teve um amor especial por esse lugar, mais do que por todos (2C 12). Como, entĆ£o, haveria de esquecer aquele lugar e aquela que Ć© sua patrona, a grande mĆ£e?


2. Maria em dois textos de Francisco

Por isso, embora sabedor que ā€œo Reino dos CĆ©us estĆ” em toda parte e que em qualquer lugar a graƧa divina pode ser dada aos escolhidos de Deus... a experiĆŖncia lhe ensinara que aquele local da igreja de Santa Maria da PorciĆŗncula estava cheio de graƧa mais abundante e era frequentado pelos espĆ­ritos celestiais. Dizia muitas vezes a seus IrmĆ£os: ā€œNĆ£o saiam nunca deste lugar, meus filhos... Aqui o AltĆ­ssimo nos deu crescimento quando ainda Ć©ramos poucos. Aqui iluminou o coração de seus pobres com a luz de sua sabedoria. Aqui incendiou nossas vontadesā€ (1C 106).

Esta experiência, levou-o mais tarde a confeccionar esta bela Antífona para todas as Horas do Ofício da Paixão. Antífona, significa aquilo que dÔ a tonalidade inicial. Poderíamos dizer, então que esta oração indica a afeição, o amor que perpassa todo o Ofício que ele ordenou e compÓs a fim de em todas as horas do dia celebrar a Paixão do seu Senhor.

Leiamos:

ā€œSanta Virgem Maria, nĆ£o hĆ” entre as mulheres no mundo, nenhuma nascida semelhante a ti, filha e serva do altĆ­ssimo e Sumo Rei Pai celestial, mĆ£e do santĆ­ssimo Nosso Senhor Jesus Cristo, esposa do EspĆ­rito Santo: roga por nós, com SĆ£o Miguel Arcanjo, e com todas as virtudes celestes e com todos os santos, junto ao teu santĆ­ssimo dileto Filho, Senhor e Mestreā€.

Com este título, esposa do Espírito Santo, Francisco começa a levantar o véu sob o qual se esconde a incomparÔvel e única beleza de Maria - a imaculada - bem como a doçura de sua presença na vida de Francisco. Uma beleza igual à beleza ou pureza do próprio Filho. E, quem é puro, santo e imaculado, não poderia fazer o milagre de conceber pura, santa e imaculada aquela que escolhera desde toda a eternidade como sua Mãe?! Não se trata, portanto de uma beleza meramente moral ou ascética, mas ontológica, isto é, que toca o ser do ser de Maria.

Além dessa oração ou antífona, Francisco compÓs também um admirÔvel poema intitulado

Saudação da Bem-aventurada Virgem Maria

Ave, ó Senhora, santa Rainha, Santa Mãe de Deus, Maria, que és virgem feita Igreja.

Eleita pelo santƭssimo Pai do CƩu,

a quem consagrou com seu santƭssimo dileto Filho e com o Espƭrito Santo ParƔclito.

Em ti residiu e reside toda a plenitude da graƧa e todo o bem.

Ave, ó palÔcio do Senhor;

Ave, ó tabernÔculo do Senhor;

Ave, ó casa do Senhor.

Ave, ó vestimenta do Senhor;

Ave, ó serva do Senhor.

Ave, ó mãe do Senhor, e

Ave, vós todas santas virtudes infusas,

pela graça e iluminação do Espírito Santo

nos coraƧƵes dos fiƩis, fazendo-os, de infiƩis, fiƩis de Deus.

ā€œFrancisco ordena todo este seu poema ao redor de uma Ćŗnica e pequenina saudação, presente em quase todos os versos: Ave. Os louvores, que aqui decanta a Maria, parecem energias procedentes de uma fonte tĆ£o originĆ”ria que, diante da mesma, nĆ£o consegue senĆ£o repetir, todo extasiado e sempre de novo: Ave... Ave... Ave...

ā€œAve Ć© fórmula de saudação equivalente Ć  proclamação: Maria, tu Ć©s a bendita, tu Ć©s a bem-nascida, a bem-gerada no Senhor, a plena da graƧa e da saĆŗde do Senhor.

Ao ver Maria, Francisco vĆŖ, antes e acima de tudo, a inefĆ”vel Fonte para dentro da qual ela – Maria – se confunde, a saber: o Verbo eterno do Pai. Ɖ por isso que, em Maria, a plenitude de toda a graƧa e de todo bem, Jesus Cristo, pĆ“de encarnar-se e realizar-se. Diante de um encontro tĆ£o profundo, em que o CĆ©u e a Terra se dĆ£o as mĆ£os, e o divino e o humano unem seus coraƧƵes, palmilhando os passos da mesma história, Francisco só pode exclamar: Ave, Ave, Ave, ou seja: Que GraƧa, que Vida, que Gratuidade, que Bondade, que Pureza, que Beleza!

Ao contemplar a divina MĆ£e e a MĆ£e do Divino, Francisco parece ver em Maria o protótipo da alma humana, isto Ć©, da alma perfeitamente unificada, na qual Deus, atravĆ©s de seu EspĆ­rito, torna-se fecundo n’Ele e por Ele mesmo. Nesse caso, a alma-mĆ£e, a exemplo de Maria, que neste mundo dĆ” Ć  luz o próprio Deus, como que se funde n’Aquele que ela concebeā€ (Cf. Fontes Franciscanas, pĆ”g. 130).


3. O tĆ­tulo ā€œImaculada Concepçãoā€.

O tĆ­tulo ā€œImaculada Concepçãoā€ (ou Conceição) significa que Maria, atravĆ©s da prĆ©via graƧa redentora de Cristo, desde o princĆ­pio de sua existĆŖncia, permaneceu preservada do pecado hereditĆ”rio e, com isto, sua existĆŖncia teve o seu princĆ­pio e o seu comeƧo com a graƧa da justificação, comunicada por Cristo. Todo o ser humano Ć© pensado por Deus, antes que como filho de AdĆ£o, como irmĆ£o de Cristo. Ele Ć© o primogĆŖnito da criação: o primeiro de muitos irmĆ£os. Enquanto tal, toda a pessoa humana Ć© destinada pela vontade salvadora de Deus Pai a receber a graƧa de Cristo. Em Maria esta verdade do ser humano como filho do Pai e irmĆ£o de Cristo e morada do EspĆ­rito Santo se realiza de modo excelso e singular.

Nesta ā€œfilha de AdĆ£oā€, nesta ā€œfilha de Evaā€, o pecado dos primeiros pais nĆ£o pĆ“de ter qualquer atuação e qualquer efeito. NĆ£o gerou nenhum fruto de morte, como costuma gerar em todos os seres humanos. Assim, nela a humanidade de todos os homens e o universo criado inteiro foram repristinados. Tudo isso, porĆ©m, nĆ£o por mĆ©rito de Maria, mas por graƧa do Filho muito amado do Pai. Devido Ć  sua indissolĆŗvel uniĆ£o com este Filho – por meio de seu ā€œSimā€ - Ele poderia se encarnar, realizando, assim, o ā€œSummum Opus Deiā€ (a Suma Obra de Deus). Assim, pela Suma Obra de Deus, isto Ć©, pela encarnação do Filho, Maria se mostrou como a Redimida por primeiro e previamente; aquela em quem a Redenção se deu desde o princĆ­pio da sua existĆŖncia, deixando-a preservada do pecado hereditĆ”rio. Se Jesus, o Filho de Deus que se tornou Filho do Homem, o Verbo que se fez carne, foi o primeiro a ser pensado e querido por Deus em sua intenção criadora, Maria, em virtude de sua uniĆ£o com Cristo, foi a primeira a ser pensada por Deus entre os redimidos por Cristo. Em virtude de sua destinação Ć  maternidade divina ela foi concebida sem a mĆ”cula do pecado: daĆ­ o tĆ­tulo ā€œi-maculada concepçãoā€ (que nĆ£o se confunde com a maternidade virginal de Maria).

No Reino de Cristo, portanto, ou melhor, na Comunhão dos Santos, Maria brilha com um brilho ímpar. Nela nunca a inimizade com Deus atuou. Nela nunca houve corrupção, rompimento entre a vontade de Deus e dela. Ela foi amiga de Deus, do começo ao fim, de sua existência terrena, sem interrupção. João Duns Scotus escreveu, certa vez:

HÔ no céu santos que nunca foram inimigos de Deus em ato, por um pecado atual, como aconteceu com os santos inocentes; e muitos outros que, às vezes, foram inimigos de Deus, como os que pecaram mortalmente, e depois fizeram penitência. HÔ também ali a Bem-aventurada Virgem Mãe de Deus, a qual nunca foi inimiga de Deus, nem em ato em razão de um pecado atual, nem em razão do pecado original.


Conclusão

Por tudo isso, nĆ£o se pode deixar de admirar que, logo em seguida, teólogos franciscanos, como Duns Scotus, chamados de ā€œimaculistasā€, que beberam diretamente dessa fonte originĆ”ria de Francisco e da Ordem, tenham formulado em termos acadĆŖmicos e formais o mistĆ©rio da Imaculada Conceição da Virgem Maria. Uma formulação que defenderam ardorosa e amorosamente, diante de outros teólogos contrĆ”rios, durante sĆ©culos, atĆ© sua proclamação oficial pela Igreja como dogma em 8 de dezembro de 1850, pelo Papa Pio IX em sua bula ā€œInnefabilis Deusā€.

Em louvor de Cristo e de sua Mãe bendita e Imaculada Virgem Maria. Amém!


Fraternalmente,

Marcos AurƩlio Fernandes e Frei Dorvalino Fassini, ofm

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