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SEGUNDO DOMINGO DA QUARESMA - 08 DE MARÇO

Pistas homilético-franciscanas


Liturgia da Palavra: Gn 12,1-4; Sl 32(33); 2Tm 1-8b-10; Mt 17,1-9.

Tema-mensagem: Na transfiguração de Cristo a transfiguração da humanidade e de toda a criação

Sentimento: temor santo


Introdução

Domingo passado, dando início a mais uma Quaresma, celebramos a graça da vitória de Jesus sobre as tentações no deserto. Hoje celebramos sua gloriosa transfiguração. Com Pedro, Tiago e João também nós subiremos o monte sagrado da Cruz a fim de, jubilosos e agradecidos, participarmos da graça de sua transfiguração.


1. A transfiguração: uma semente que vem de longe (Gn 12,1-4)

Na origem da maioria dos povos e dos grandes personagens da história da humanidade e, em parte, também de cada um de nós, está uma grande iluminação que muda e transforma as pessoas por dentro e por fora. Assim, por exemplo, a luz que tomou conta do coração de Francisco e dos primeiros frades, mediante o encontro com o crucificado de São Damião e com o evangelho, deu início à vida de um novo Francisco e de um nova Ordem na Igreja.

1.1. Uma semente começa a nascer no coração de Abraão

A perícope do livro das origens, ou melhor, das gerações, lida hoje, testemunha assim a luz que está na origem do antigo Povo de Deus: Naqueles dias o Senhor disse a Abrão: ‘Sai da tua terra, da tua família e da casa do teu pai e vai para a terra que eu te vou mostrar. Farei de ti um grande povo...’ (Gn 12,1).

Na graça desta aparição do Senhor Deus, acende-se na mente de Abrão a luz de uma nova nação e germina em seu coração a semente de uma nova geração, de um novo povo. Neste sentido, Abraão não é apenas o patriarca, mas também o profeta de uma nova humanidade; um anunciador, um proclamador do porvir, e, assim, um mediador entre o Deus vivo e os homens mortais; um vidente de um novo céu e de uma nova terra.


2. Abrão partiu

Recebida e ouvida a ordem do Senhor, Abrão sente-se imediatamente tocado, iluminado e transformado por dentro e por fora. Por isso, também, seu nome é transformado de “pai ilustre” - Abrão – para “pai de muitos” - Abraão. A disposição que sustentou a caminhada de Abraão, vinda da iluminação daquele encontro, chamamos de fé. Por isso, a Carta aos Hebreus faz questão de lembrar que pela fé, Abraão, respondendo ao chamamento, obedeceu e partiu para um lugar que devia receber em herança, e partir sem saber para onde ia (Hb 11, 8).

Assim, de estranho, Abraão, aos poucos, foi se tornando familiar, amigo, íntimo, confidente e vidente do próprio Deus no meio de povos estranhos (Cf. Gn 15). Mas, também Deus se tornara, familiar, íntimo, amigo e confidente de Abraão e através deste para todos os povos e nações.

A caminhada de Abraão para Deus e com Deus, torna-se assim uma prefiguração muito clara da caminhada percorrida, mais tarde, por Cristo e que hoje deve ser assumida por cada um de nós, herdeiros da semente desta história e desta vocação. Assim, é pela luz desta fé que nós nos tornamos participantes da nova humanidade que Deus quis ver e fazer surgir desde os tempos mais antigos; também nós, a exemplo de Abraão, devemos aprender partir, - sermos cristãos “em saída”, desprendidos de tudo - casas, terras, dinheiro - e de todos - pais, irmãos, família, amigos. Aprender, enfim a estar no mundo e com as coisas do mundo, sem sermos do mundo para estarmos com Deus e para Deus.

Por isso, mais tarde dirá Paulo: Com efeito, está escrito: Eu fiz de ti o pai de um grande número de povos. Ele é nosso pai diante d’Aquele em quem acreditou, o Deus que faz viver os mortos e chama à existência o que não existe. Esperando contra toda esperança, ele acreditou e assim se tornou pai de um grande número de povos segundo a palavra: Assim será a tua posteridade (Rm 4, 17-18).


2. Jesus Cristo o novo Abraão (Mt17,1-9)

O que em Abraão fora anúncio, profecia torna-se realidade plena, definitiva e consumada em Cristo e por Cristo. Eis o grande ensinamento do evangelho da transfiguração proclamado neste 2º domingo da Quaresma.

2.1. Uma luz para remover as trevas do escândalo da Cruz

O milagre se dá seis dias após o anúncio que Jesus fizera de sua decisão de subir a Jerusalém a fim de acolher as perseguições, os maus tratos e, acima de tudo, acolher a vontade do Pai até a morte e morte de cruz. Os apóstolos ficaram escandalizados, desorientados, desanimados e apavorados. São Leão Magno explica com muita propriedade o ensinamento deste milagre: na transfiguração, aquilo que está em questão de modo “principial” é a finalidade de remover dos corações dos discípulos o escândalo da cruz. Além do mais, a visão do Cristo transfigurado deveria, também, ajudar os três discípulos, líderes entre os doze, a verem a glória da presença, do cuidado de Deus, escondida e brilhando no momento, aparentemente, mais baixo, humilhante e vergonhoso da vida Dele: a crucificação.

Importa recordar que, pouco antes, Jesus havia anunciado: Em verdade, eu vos declaro: dentre os que estão aqui, alguns não morrerão antes de ver o Filho do Homem vindo no Reino (Mt 16, 28). Esta promessa de uma aparição gloriosa de Jesus vindo como Filho do Homem na glória, isto é, no esplendor de seu Reino, já se cumpre, de certo modo, neste episódio que se dá “seis dias depois” daquele anúncio. Por isso, e em verdade, em vez de naquele tempo, o capítulo em questão, começa assim: seis dias depois. Esta maneira de escrever parece apontar para a primeira criação. Assim como na história da criação, ao término de seis dias, o homem – Adão - aparece no brilho de seu esplendor por causa de sua imagem e semelhança com Deus, também agora, na nova criação, seis dias depois, o Filho do Homem aparece em toda a sua glória: transfigurado diante deles, o seu rosto brilhou como o sol e suas vestes ficaram brancas como a neve.

Mas, para participar desta visão, é preciso ser conduzido à parte sobre uma alta montanha. “À parte”, significa que o homem não pode contemplar o mistério de Cristo sem se separar dos apegos terrenos, dos vícios e pecados. É preciso, pois subir, pôr-se sobre uma alta montanha – Cristo crucificado - pois, é nela e só nela que se unem o céu e a terra, o divino e o humano.

2.2. E foi transfigurado

O que os apóstolos viam diante de si era aquele mesmo Jesus que julgavam conhecer muito bem, “segundo a carne”: o filho de Maria e de José, o “nazareno”. Algo de inaudito, porém, estava acontecendo. Sua aparência mudara: o seu rosto brilhou como o sol e suas vestes ficaram brancas como a luz. O mais inaudito, porém, foi a nuvem luminosa que os cobriu com sua sombra e a voz que dela ecoou testemunhando que este Filho do Homem era também e ao mesmo tempo o Filho muito amado de Deus no qual Ele, Deus, punha todo o seu agrado. Estava assim revelado e desvendado com toda a clareza o sentido do anúncio que fizera poucos dias antes, acerca do sentido de sua caminhada para Jerusalém onde seria preso, maltratado e crucificado.

Note-se que Mateus não diz simplesmente que ele foi transfigurado, mas acrescenta: diante deles. Isso parece óbvio e, se fosse óbvio, poderia ser omitido. Mas, este acréscimo, talvez, esteja dizendo que agora não estavam vendo o mestre a partir deles e de seus interesses, mas a partir Dele mesmo. Ou seja, que Ele acabara de conceder-lhes a graça de vê-Lo, não mais “segundo a carne”, mas segundo o Espírito e a divindade, como nos recorda São Francisco numa de suas Admoestações:

Ele não pode ser visto senão no espírito, porque o espírito é que vivifica, a carne de nada serve. E nem o Filho, no que é igual ao Pai, pode ser visto de forma diferente que o Pai e o Espírito Santo. Por isso, foram danados todos quantos viram o Senhor Jesus segundo a humanidade, e não O viram e não creram segundo o espírito e a divindade, que seja o verdadeiro Filho de Deus (Adm I, 6-8).

2.3. Seu rosto brilhou como o sol

Na nossa experiência cotidiana não há nada que brilhe, encante e nos faça renascer mais do que o sol. Na tradição dos povos o sol aparece não apenas como uma manifestação divina, mas também, por vezes, como o próprio Deus. Jesus mesmo fora saudado por Zacarias, no evangelho de Lucas, como o “astro nascente vindo do alto”, que veio nos visitar.

Não é de estranhar, pois, que a tradição cristã costuma chamar Jesus de “Sol da justiça” (“Sol justitiae”), “Sol invencível” (Sol invictus”), o Sol espiritual, o coração do mundo. Vale recordar ainda que para muitos povos o sol possui caráter feminino de mãe: Mãe Sol. Jesus Cristo, se torna assim a grande Mãe que gera e faz nascer o novo Adão, a nova Humanidade. Dentro desta simbologia, ainda podemos ver em seus doze raios os doze apóstolos.

São João, um dos videntes da transfiguração, diz no prólogo do seu evangelho: No princípio era o Verbo, e o Verbo estava voltado para Deus, e o Verbo era Deus (...). Nele estava a vida, e a vida era a luz dos homens e a luz brilha nas trevas, e as trevas não a compreenderam (...). E o Verbo se fez carne e habitou entre nós e nós vimos a sua glória; glória essa que, Filho único cheio de graça e de verdade, ele tem da parte do Pai (Jo 1,1.4-5.14).

Assim, quem, a exemplo de Abraão, de Francisco, sobe à montanha da sabedoria da Cruz, pelo caminho estreito das virtudes evangélicas; quem se desprende do sentido carnal para assumir sua caminhada de cristão na visão da fé também haverá de ter a graça de ver e contemplar a Cristo, nosso Sol e nossa Luz; também haverá de ver-se transformado Nele, com Ele e como Ele, brilhante como o sol e como a luz.

2.4. Moisés e Elias

Além de Jesus, transfigurado na sua glória, apareceram, também, Moisés e Elias que conversavam com ele (Mt 17, 3). Moisés e Elias são os expoentes maiores de todo o Antigo Testamento. O primeiro sempre foi tido como o representante da Lei e da orientação que constituiu e deu solidez ao Povo de Deus e o segundo, falando sempre em nome de Deus, animava e fortalecia o Povo a manter-se fiel à sua aliança. Agora, em Jesus e com Jesus, a Lei e as Profecias entram em diálogo: conversam. Assim, o Evangelho, a Boa Nova põe diante dos olhos de nosso coração a glória da cruz, princípio da nova aliança. Tudo isso é dito, pois em forma de parábola ou símbolo para que nós também, ao lermos o Antigo Testamento, procuremos ver nele o brilho, o esplendor do Evangelho, a raiz do Cristianismo e que saibamos, também, sempre nutrir-nos desta raiz a fim de encetarmos com segurança o caminho da cruz (Cf. Verbum Domini, 40). Tudo aponta, então, para o Reino de Deus, e para o Rei, o Cristo Senhor, para o mistério de sua encarnação e de sua paixão, morte e ressurreição.

A transfiguração e a presença de Elias e Moisés têm, pois um sentido sumamente mistagógico e pedagógico: ajudar a Pedro, e a cada um de nós, a acolher de bom grado o caminho para Jerusalém, o caminho da paixão e da morte na cruz (cfr. Mt 16, 22); que comece e comecemos a abrir o coração ao mistério que se ocultava neste destino aparentemente humilhante e frustrante de Jesus. Era, e é, preciso abrir os olhos e ver que toda a Escritura se constitui numa única e grande profecia, um único e grande ensinamento deste evento extraordinário, inaudito: a glória da Cruz que transfigura o próprio Cristo, a humanidade e toda a criação. Exemplo ímpar desta transformação ou transfiguração encontramos em São Francisco. De um simples filho de Pedro Bernardone nasceu um “outro Cristo” e, de um simples cidadão da insignificante Assis, um cidadão universal.

2.5. Uma nuvem luminosa os cobriu

Pedro, extasiado pelo brilho da visão e inebriado pela doçura de tão ilustres personagens, deseja permanecer no alto da montanha. Sugere, até, armar três tendas ali: uma para Moisés, outra para Elias e outra para Jesus, esquecendo que o sentido daquela visão era fortalecê-lo para descer à planície a fim de encetar os passos de outro caminho e para outra subida: o caminho e a subida para Jerusalém. Por isso, Lucas anota que Pedro não sabia o que dizia (Lc 9, 33). Como Abraão, também Jesus e seus discípulos tinham que sair, fazer o êxodo para a terra para a qual o Pai os enviava: Jerusalém. Para subir outro monte: o Gólgota. Lucas, de fato, anota que Moisés e Elias conversavam com Jesus sobre a partida (“éxodos”) de Jesus que ia se realizar em Jerusalém” (Lc 9, 31). Toda oração e contemplação na vida cristã que não forem animadas pelo espírito do “êxodo” não são o que são ou querem ser: abertura, até a morte, se necessário, para o encontro com o Outro e com os outros, principalmente os mais distanciados, pobres e sofredores.

O ambiente e a cena toda vêm envolvidos por uma nuvem luminosa que os cobriu com sua sombra (Mt 17, 5a). As teofanias do “Deus absconditus” (Deus escondido) no Antigo Testamento vem, muitas vezes, através da nuvem escura. No milagre da transfiguração a nuvem luminosa acena para a presença do Espírito Santo na qual aparece o próprio Filho do Homem, que vem na glória, no brilho do esplendor de sua identidade mais profunda e real: Filho muito querido do Pai e destinado para ser a luz das nações através de sua doação até a morte e morte de cruz.

Mateus continua: e eis que, da nuvem, uma voz exclamava: ‘Este é o meu Filho bem-amado, aquele que me aprouve escolher. Escutai-o (Mt 17,5b). Os Padres leem na narrativa da transfiguração a revelação da Trindade, tanto quanto a leem na narrativa do Batismo. No Batismo aparecem a Voz do Pai, o Filho amado e o Espírito em forma de pomba. Na transfiguração, a Voz do Pai, o Filho amado e o Espírito em forma de nuvem luminosa.

2.6. Escutar o Filho muito amado do Pai

Os três discípulos, são agraciados, assim, pelo sagrado convívio (comunhão):

- com o Filho do Homem que é transfigurado em Filho de Deus;

- com o Pai que testemunha ser este Jesus crucificado seu Filho muito amado, o qual todos devemos ouvir e no qual Ele mesmo põe todo seu afeto;

- com o Espírito Santo que os envolve e une na leveza e suavidade de uma nuvem luminosa.

Hoje, também nós somos instados a não somente ouvir o Filho, mas também a escutá-lo. Ouvir é diverso de escutar. Ouvir é perceber ruídos, vozes, palavras. Escutar, porém, é pertencer, ou seja, é obedecer, seguir, fazendo-se seguidor e imitador do mestre até o ponto de tornar-se um com ele, como aconteceu com São Francisco, que era visto como um “Cristo redivivo” (Pio XI).

2.7. Caíram de rosto em terra

Ao ouvirem a voz do Pai e seu testemunho sobre o Filho bem-amado, os discípulos desfalecendo caíram de rosto em terra, tomados de grande temo (Mt 17, 6). Note-se que os discípulos caem não de costas, como ímpios, mas de rosto em terra, como adoradores. O toque de Jesus, porém, e sua palavra encorajadora (“Levantai-vos! Não tenhais medo! ”) fazem desvanecer o temor. E, erguendo os olhos, nada mais viram senão Jesus, só. Ou seja, tendo se desvanecido as sombras da Lei e dos Profetas, diz São Jerônimo, ficou-lhes ante os olhos apenas o Evangelho. O Evangelho, com efeito, contém e torna patente a verdade e a graça que estavam escondidas na Lei e nas Profecias.


Conclusão

A exemplo da experiência de Abraão e dos três discípulos, também nós, hoje participando da solenidade da transfiguração de Jesus, sentimo-nos convocados a principiar uma nova saída. Uma profunda conversão que nos leva a descer do monte sagrado desta Eucaristia para viver a vocação de guardiães da obra de Deus como parte essencial de uma existência cristã virtuosa (LS 217). Neste sentido, continua o Papa Francisco, recordemos o modelo de São Francisco de Assis (idem, 218), o cidadão universal e patrono da ecologia.


Fraternalmente,

Marcos Aurélio Fernandes e Frei Dorvalino Fassini, ofm

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