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O RICO GLUTÃO E O POBRE LÁZARO

PISTAS HOMILÉTICO-FRANCISCANAS - 26º DOMINGO DO TEMPO COMUM – ANO C




Leituras: Am 6,1ª.4-7; Sl 145; 1Tm 6,11-16; Lc 16,19-31

Tema-Mensagem: Enquanto o rico glutão se afoga na avidez dos bens que o Senhor lhe dá de presente afundando-se cada vez mais nas profundezas do inferno do seu isolamento, o pobre Lázaro mendiga a salvação de Deus que o leva para o paraíso da comunhão de Abraão e de seus descendentes.

Sentimento: compaixão


Introdução

Neste Domingo, o ensinamento de Jesus nos vem através da famosa parábola do rico glutão e do pobre Lázaro.

1. O destino e o sofrimento dos que não se preocupam com a ruína do próximo (Am 6,1ª.4-7)

Novamente, como no domingo passado, o vaqueiro e plantador de sicômoros, Amós, transformado em profeta pelo Senhor, é quem nos introduz na celebração do mistério de hoje. O trecho é tirado do último capítulo da segunda parte de sua profecia.

As vitórias de Jeroboão (2Rs 14,25) haviam proporcionado não apenas o enriquecimento, o luxo e o conforto da classe dominante, mas também, despertado o vício da ganância e da soberba que, por sua vez, os levara à exploração em cima dos pequenos agricultores e marginalizados das cidades.

Se no primeiro capítulo o discurso é contra povos pagãos (Damasco, Gaza, Tiro, etc.), agora é contra os maiorias do povo, responsáveis pela situação do momento que é de iminente queda. Por isso, se lá era uma fala de pura condenação, aqui é de um misto de condenação e de dor. Por isso, começa com um “Ai!”. “Ai dos que vivem despreocupadamente em Sião, os que se sentem seguros nas alturas da Samaria” (Am 6,1).

Amós, não podia deixar de condenar os que buscavam segurança “nas alturas da Samaria”, isto é, na adoração dos ídolos pagãos, o pior de todas as decadências, porque atingia a raiz de sua identidade. Em vez de Povo de Deus – pertencente a Deus - estavam se tornando povo dos ídolos – pertencente aos ídolos - semelhante aos povos pagãos. Mas, também não podia deixar de condenar outras decadências, também muito graves porque ofendiam o caráter comunitário-social de sua identidade de Povo de Deus, de irmãos. Pois, como podiam alguns: “dormir em camas de marfim, deitar-se em almofadas...”, etc., como podiam viver tão tranquilos, sem se preocupar com “a ruina de José!?”, isto é do povo, da grande comunidade de irmãos?!

Enfim, o luxo e o conforto de uns representava a exploração e a miséria da maioria. Como já o dissera anteriormente: “vendem o justo por dinheiro e o pobre por um par de sandálias ... pai e filho vão à mesma jovem, profanando meu santo nome” (Am 2,6-7).

Por outro lado, a dor é dupla. Primeiramente por causa dos sofrimentos que esta injustiça impinge sobre a grande maioria do povo que tem de viver, muitas vezes, sem o mínimo necessário para satisfazer as necessidades básicas do corpo como o vestir, e o comer e mesmo do espírito, privados, assim, da participação do verdadeiro culto ao seu Deus, vivo e verdadeiro.

Mas, a dor do profeta nasce também por causa do destino final dos próprios responsáveis desta iminente catástrofe social e religiosa. Pois, por causa do pecado desta sua falta de sensibilidade social e religiosa “irão para o desterro, na primeira fila, e o bando dos gozadores será desfeito” (Am 6, 7).

2. Combater o bom combate da fé e guardar íntegro e sem mancha o mandato do Senhor (1Tm 6,11-16)

A segunda leitura, tirada da Primeira Carta de Paulo a Timóteo, faz parte das assim chamadas Cartas pastorais. Ou seja, neste pequeno trecho encontramos instruções e orientações muito precisas e preciosas acerca do reto desempenho da função dos pastores, no caso Timóteo e, consequentemente, de todos os fiéis. Ou seja, temos aqui um belo texto que nos diz como devemos cuidar, pastorear o precioso tesouro da vida de Cristo, a vida de Deus. Por isso, Paulo começa apontando para Timóteo a raiz de todas as suas exortações: “Tu que és homem de Deus...”.

Há, pois em Timóteo, bem como em todo cristão um genes que nos distingue, separa e põe em contradição com os outros homens que possuem e vivem a partir do genes do mundo.

É movido por este genes que o homem de Deus “foge das coisas perversas, procura a justiça, a piedade, a fé, o amor, a firmeza, a mansidão” (1Tm 6,1). Não é a primeira vez, nem será a última que Paulo expressa esta exortação que orientou e conduziu toda a sua vida (Cf. 1Tm 1,18-19; 2Tm 4,6-8). Em verdade ele está repetindo e retomando um dos princípios básicos para poder entrar e perseverar no Reino de Deus, proclamado por Jesus Cristo: ‘Não penseis que vim trazer paz à terra; não vim trazer paz, mas a espada’” (Mt 10,34).

Paulo como Jesus não está recomendando, evidentemente, a que nós cristãos recorramos às armas ou a qualquer outro tipo de agressão contra possíveis inimigos externos à nossa fé. Os que de fora combatem nossa fé, em verdade não são inimigos, mas amigos. Nossos inimigos são os que agem dentro de nós e que hoje, nosso Papa gosta de denomina-los com esta expressiva qualificação: ”Mundanismo espiritual”. Ele mesmo enumera alguns destes inimigos: os que em vez da glória de Deus, buscam mais a glória humana e o bem estar pessoal e buscam o comodismo, a acídia, o poder e o domínio sobre os outros e sobre os espaços da Igreja ou da Comunidade.

Ao falar em combate, Paulo está dizendo que o Evangelho requer uma tomada de decisão, uma ruptura e mudança de vida radical, primeiramente dentro da própria pessoa e depois a tudo que está a seu redor.

São Freancisco expressa esta experiência quando testemunha em seu Testamento que enquanto vivia seguindo os princípios da grandeza do mundo era-lhe amargo ver leprosos. Quando porém foi levado pelo Senhor para o meio deles, o que lhe era amargos se tornou doçura da alma e do corpo.

Em seguida vem as rupturas exteriores: divisões na família, no trabalho e em todos os setores da vida do cristão. Francisco chegou a ser perseguido pelo próprio pai que o colocou na prisão por meses a fio¸ levou-o à juízo perante as autoridades civis e perante o próprio Bispo de Assis.

Segundo o Evangelho, do começo ao fim, o cristão deve lutar é pela paz e jamais pegar em armas para defender seus direitos e os direitos de Deus. Por isso será, muitas vezes rejeitado e perseguido e levado à morte. Este é o bom combate porque só nasce do bem e só leva ao bem. O outro, que nasce das armas e da contenda é o mau combate porque nasce do mal e só leva ao mal.

Por isso, Paulo termina exortando Timóteo: “guarda o teu mandato íntegro e sem mancha até a manifestação gloriosa de Nosso Senhor Jesus Cristo” (1 Tm6,14). Ora, qual é este mandato senão aquele eu Jesus entregou na Última Ceia: “amar como Deus ama, também e principalmente os inimigos”.

Quem mais tarde deu um bela interpretação acerca deste modo de combater foi São Francisco que classificou a si e a seus companheiros como uma Ordem, um exército de cavaleiros, de lutadores cuja única arma era a Cruz de seu único Senhor Jesus Cristo crucificado.

Não se trata, portanto, de heróis que buscam seu engrandecimento, muitas vezes derrotando ou derrubando os demais. São lutadores, sim, cavaleiros que, a exemplo de São Francisco, labutam a modo da nossa irmã e mãe terra. A terra não grita a modo de drama, em vivências espetaculares, nem de profundidade trágica de uma autenticidade autoconsciente de si. É, antes, sóbria, simples e modesta. Não, porém, resignada, mole, passiva e neutra. É tenaz, sim, dura e exigente. Mas, não “durona”, pedante ou moralizante. É disciplinada, trabalhadora, insistente. E, no entanto, não é fascista, estafante, fanática (FF pág. 905).

3. O caminho do avarento glutão e do pobre Lázaro (Lc 16,19-31)

Como no domingo passado, com a parábola do Administrador Desonesto, também hoje e de novo, através de outra parábola, a do rico glutão e do pobre Lázaro, somos levados a celebrar o mistério do sentido dos bens deste mundo, isto é, como devemos nos relacionar com os bens com os quais o Senhor nos presenteia de modo tão belo e abundante.

3.1. O rico

Em verdade, o rico da parábola de hoje contraria completamente a lição da parábola do administrador desonesto porque não soube ou não quis usar dos bens deste mundo para fazer amigos (Cf. Lc 16,9). Em vez de servir a Deus, seu senhor, na pessoa do pobre, quis e preferiu servir tão só e avidamente a si mesmo. Por isso o destino dele será “a região dos mortos”.

A parábola nos alerta sobre:

- o uso egoísta e abusivo das riquezas;

- o modo indiferente e desprezível de se tratar o próximo;

- a figura do pobre e mendigo que vive ao nosso lado.

Na abertura se diz que Jesus estava falando para fariseus, líderes religiosos que haviam se adonado da religião a fim de satisfazer os mais variados e espúrios desejos e cobiças pessoais. Em vez de servir a Deus serviam-se da religião e das práticas religiosas para se aturo-promoverem tanto social, econômica como religiosamente. Gabavam-se de uma pretensa e falsa pureza e fidelidade religiosa e espiritual. E, consequentemente, desprezavam os demais como pecadores e não observantes da lei. Chegavam a chamar os pagãos de impuros e de qualificá-los com a baixa denominação de “cães”.

No meio de uma farta mesa de bens materiais e de uma falsa riqueza ou acúmulo de bens espirituais, participando de festas e banquetes diários, aquele rico era a ostentação do mais puro mundanismo de um homem tomado pela mais vergonhosa falta de gratidão e sensibilidade e de um coração dominado pelo egoísmo, pela sede de ostentação e de avareza.

Ele viveu de forma luxuosa, e sem dúvida seu sepultamento fez jus à sua importância. Mas, após a morte foi para um lugar de tormento, denominado de inferno, no grego hades. Pela descrição da cena a essência desse tormento não é outro senão o isolamento de Deus e de todos os seus santos, representados aqui por Abrão e todos os seus descendentes. A dureza de coração, a impiedade deste rico é tamanha que nem mesmo após a morte e em meio aos mais dolorosos tormentos de solidão se converte. Em relação a Deus e sua palavra permanece surdo. E assim em vez de reconhecer sua soberania e pedir humildemente perdão continua obstinado em seu egocentrismo. Primeiramente, implora a Abrão que mande Lázaro molhar o dedo na água e com ela refrescasse sua língua. Para ele, Lázaro continua sendo apenas um empregado, objeto de uso e não um irmão. E ato contínuo, pede-lhe que mande mensageiros à casa de seu pai para fazer com que seus cinco irmãos se arrependessem. Era de coração tão empedernido que nem os tormentos do inferno conseguiram mover-lhe o coração de sua avareza egocêntrica. Provou, portanto do quanto ele negligenciou a Palavra de Deus, do quanto não amou a Deus sobre todas as coisas, muito menos seu próximo como a si mesmo.

3.2. Lázaro

O segundo personagem da parábola, ao contrário do rico, tem nome: Lázaro. Em hebraico Lázaro ou Eleazar, significa “Deus tem socorrido” ou “Deus ajuda”. Ao contrário do rico glutão, Lázaro é, aqui, o protótipo do homem que deposita toda a sua confiança em Deus e não em seus bens materiais ou méritos espirituais.

Como aquele rico, Lázaro também morreu. Mas, ao contrário do rico, era tão pobre que nada se diz de seu sepultamento, Ele não recebeu nenhuma honra terrena, nem mesmo de maneira póstuma. Todavia, algo muito mais importante e glorioso do que isto é dito sobre seu destino: foi levado pelos anjos para o seio, a companhia de Abraão no Paraíso. O contraste impressiona. Enquanto o mendigo, aqui na terra era rejeitado e desejava comer migalhas e tinha por companhia os cães, que lhe lambiam as feridas e agora estava no céu, reclinado à mesa celestial juntamente com Abraão (cf. Mateus 8:11), o pai de todos os crentes (Rm 4:11), o rico ardia em meio as chamas do inferno.

Além do mais, não podemos deixar de notar outro contraste com o rico. Enquanto este, desesperado, se desdobrava em inúmeras suplicas, em Lázaro impera o silêncio. Nenhuma palavra saiu de sua boca, nem enquanto estava vivo, nem mesmo após a morte. Além do mais e também, ao contrário do rico, Lázaro em nenhum momento precisou de qualquer auto-justificação.

Devemos notar, porém que o rico é condenado não por ser rico, mas porque não soube assumir a vida como ela é: um dom. E mais ainda, um dom que, como tal, deve ser posta à serviço dos outros, principalmente dos pobres mendigos que estão ao redor de sua mesa. A riqueza torna-se ocasião de pecado quando, o homem levado pelo vício da avareza, fecha o coração à solidariedade, à comunhão, impedindo que ela realize sua função: satisfazer as necessidades básicas de todos os homens, principalmente dos mais necessitados e marginalizados. Cria-se então o inferno da divisão, da separação.

Da mesma forma, o pobre é enaltecido não por ser pobre, mas por pôr sua confiança em Deus deixando-se guiar pela força de seu amor e de sua graça. Foi esse o testemunho de Abrão. Sendo muito rico, não se vangloriou de sua riqueza, mas atribui-a toda a Deus a quem se confiara e submetera inteiramente, a ponto de sacrificar-lhe o próprio filho. Cai por terra, assim e também, a vanglória dos fariseus que julgavam, pensavam que podiam se auto-justificar pelo merecimento de suas práticas religiosas.

Finalmente pode-se ainda acrescentar esta lição: o tempo da salvação é este que nos é dado aqui na terra. É aqui e agora que nos é ofertada a graça de fazermos a vontade de Deus, isto é, de fazermos frutificar os bens que nos concede segundo seu desígnio. A morte sela definitivamente nossas escolhas. O pobre que morre entregue à confiança do Senhor continuará sendo acolhido pelo amor misericordioso de Deus. Já o rico avarento que morre obstinado na sua própria escolha: no deleite de sua auto-justificação continuará sofrendo o tormento do interno da ausência de Deus e dos irmãos.

Dizíamos acima que a parábola tem um endereço certo: os fariseus representados perlo personagem do rico avarento. Mas, entre as linhas pode-se ler com muita clareza o protagonista de toda esta parábola: no pobre Lázaro está o pobre Servo de Javé, Jesus Cristo crucificado. Tudo que se diz na parábola acerca de Lázaro foi vivido por Jesus. Como Lázaro também ele teve de mendigar o pão do amor na acolhida dos homens; também Ele foi rejeitado, afastado da companhia dos maiorais deste mundo; também ele foi amado pelos “cães” da época, os pagãos e marginalizados da religião; também morreu e foi enterrado sem nenhuma referência. Mas, finalmente, como Lázaro, também Ele após sua morte, foi levado para junto do Pai onde vive na companhia de todos os santos e amados de Deus.

Conclusão

Diante das leituras de hoje algumas conclusões merecem nossa atenção. Primeiramente, devemos considerar que pobreza e riqueza formam como que um dueto que atravessa toda a história e todos os povos da humanidade. Por causa desta dualidade nasceram divisões, brigas e se fizeram guerras e matanças incontáveis. Para a solução deste conflito só há um caminho: o indicado e introduzido no coração do homem pelo próprio Filho dom Homem que “sendo rico se fez pobre” (2Cor 8,9). Desde então, a Igreja, para saber se está sendo fiel à sua vocação e missão, sempre, desde os Apóstolos, recorre a este princípio: não esquecer jamais os pobres (Cf. Gl 2,10).

Este compromisso, porém, diz nosso Papa não se identifica e nem se limita apenas a ações que visam promover o pobre, mas acima de tudo em amá-lo, estimá-lo “considerando-o como um só consigo mesmo” (EG 199).

Infelizmente, diz ainda o papa, às vezes somos duros de coração e de mente. Extasiados pelos ídolos do consumo e do bem estar fácil e vão esquecemos este princípio básico para a construção de uma sociedade solidária (Cf. EG 196).

O que a parábola condena não é o banquete, a festa e nem mesmo a riqueza mas que estes sejam buscados somente para si; condena a ostentação, a avareza que impedem e afastam as pessoas da alegria do encontro, do convívio, principalmente com os amados de Deus, os pobres.

Em segundo lugar, devemos considerar, também, que mais detestável que a avareza e a ostentação no vestir, no comer é a avareza e a ostentação daqueles que buscam Deus e a prática da religião para orgulhosamente e de modo vão se ufanar perante si mesmos, perante Deus e os outros como puros, santos e salvos.

Enfim, a parábola gira em torno das consequências de quem coloca o sentido e a felicidade de sua vida apenas no prazer dos bens e das riquezas deste mundo. Seu destino será o inferno, isto é, a tristeza de um coração comodista e mesquinho que o isola da comunhão com os outros e com o próprio Deus. Em contraposição o pobre – Lázaro, o Servo de Javé – que se confia nas esmolas e na ajuda de Deus se verá cumulado da graça da comunhão e do convívio com o próprio Deus e com toda a descendência do pai Abrão.


Fraternalmente, Marco Aurélio Fernandes e Frei Dorvalino Fassini

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