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MISTÉRIOS DOLOROSOS - Parte 1

O ROSÁRIO COMENTADO DO PONTO DE VISTA BÍBLICO - Parte 7


Introdução

Os mistérios dolorosos são muitas vezes alvo de questionamentos. Porque Jesus teve que sofrer tanto? Por que seu Pai assim o quis e esteve, por assim dizer, mancomunado contra ele? Algumas possíveis explicações.

a) Anteriormente fora dito, no anúncio da Encarnação, que aquele no qual todas as coisas existem, aquele por meio do qual todas as coisas foram criadas, se tornou visível para suas criaturas. Portanto tudo existe em Cristo.

b) além do mais, disse Jesus: "Então os justos lhe responderão: 'Senhor, quando foi que te vimos com fome e te alimentamos, com sede e te demos de beber? Quando foi que te vimos forasteiro e te recolhemos ou nu e te vestimos? Quando foi que te vimos doente ou preso e fomos te ver?' Ao que lhe responderá o rei: 'Em verdade vos digo: cada vez que o fizestes a um desses meus irmãos mais pequeninos, a mim o fizestes'" (Mt 25, 37-40). Em outras palavras, o que se deixa de fazer a um dos "irmãos mais pequeninos, a mim o fizestes".

c) Portanto, qualquer sofrimento causado a um dos irmãos, ou, pode-se dizer, a qualquer criatura, especialmente animais ou plantas, pois também elas existem em Jesus, é um sofrimento causado ao próprio Jesus. "Ele fala conosco, vive conosco, sofre conosco e assumiu a morte por nós" (Bento XVI). Jesus, assume sobre si todos os sofrimentos, passados, presentes e futuros e, através de seu sangue derramado, dá sentido a todo esse sofrimento. Portanto, nos mistérios dolorosos, meditamos sobre todas as dores causadas às criaturas, sejam elas os mais diferentes tipos de vinganças, torturas, sofrimentos, sejam eles a nível físico, psíquico e espirituais. Em última análise são sofrimentos causados a Jesus porque ele existe em cada criatura.


3.1. A agonia de Jesus no Jardim da Oliveiras (Mt 26,34-46)


No Jardim/Monte das Oliveiras, antes de sua prisão Jesus orava, como era costume seu, antes de momentos decisivos de sua vida. Ele está passando por um momento decisivo. Sabe que antes de ele poder se oferecer como resgate pelas criaturas, ajudando-as a passar pelo sofrimento e morte até chegar à ressurreição, ele mesmo deverá fazer a mesma experiência. Ele sabe que é muito sofrimento assumir as dores de cada criatura, sejam elas do passado, como as do presente e também futuro de uma só vez, para libertá-las. Por isso ele reza: "Meu Pai, se é possível, que passe de mim este cálice; contudo, não seja como eu quero, mas como tu queres" (Mt 26,39). Lucas diz que "seu suor se lhe tornou semelhante a espessas gotas de sangue que caiam por terra" (Lc 23,44). O suar sangue não é um fenômeno muito estranho. Algumas pessoas, acreditando que iriam sofrer muito ou até morrer, sob uma tensão extrema, os vasos capilares logo abaixo da pele delas se rompem e o sangue escorre para dentro das glândulas sudoríperas e assim essas pessoas transpiram esse sangue. Pode-se ter então uma noção mínima do que estava acontecendo com Jesus. A oração foi a força de Jesus neste momento torturante. Aos discípulos, antes de sua prisão ele diz: "Levantai-vos e orai para não cairdes em poder da tentação" (Lc 23,46).


3.2. A Flagelação de Jesus (Mt 27, 24-26)

Após a prisão de Jesus buscava-se motivos para uma condenação, especialmente, se possível, à morte. Em Mateus a multidão declara que assume toda a responsabilidade pela morte de Jesus. Finalmente ele é condenado à morte. Isso foi a culminação de todo um processo que se inicia com seu nascimento. As criaturas que tinham feito uma opção por uma existência fundada na manutenção de seu próprio poder, da sua honra, da discriminação, de variadas formas de subjetivismos, da não aceitação de uma orientação para a busca de formas mais solidárias de vida e de uma vida mais plena nunca aceitaram Jesus. Esperavam um messias glorioso vindo sobre as nuvens do céu para colocar ordem na bagunça e restituir aos dirigentes judeus de então o mando do mundo como fora nos tempos de Davi. Esses dirigentes do judaísmo nunca poderiam aceitar Jesus. Lucas expressa essa não aceitação dizendo: "envolveu-o com faixas e reclinou-o numa manjedoura, porque não havia um lugar para eles na sala", ou seja, no meio dos seus (Lc 2, 7). Teologicamente se pode ler como uma rejeição do menino. Mateus diz: "Ele [José] se levantou, tomou o menino e sua mãe, durante a noite, e partiu para o Egito" (Mt 2,14). Apesar de que Mateus vê Jesus como o novo Moisés que tira seu povo de um meio hostil através de uma nova páscoa (passagem), no contexto continha uma perseguição ao menino pelos poderosos de então. João, no seu Evangelho diz: "Veio para o que era seus e os seus não o receberam" (Jo 1,11). Os seus eram todos aqueles que existiam por meio dele, mas o rejeitaram. Mateus diz que a "multidão declara que assume toda a responsabilidade pela morte de Jesus. Israel desvelou o seu verdadeiro rosto de povo infiel, colocando na cruz o seu Messias e Rei"[1]. Acontecida a condenação à morte o condenado era entregue à sanha dos soldados. Iniciava então um processo de tortura. A primeira era a flagelação, um momento que o condenado era açoitado com uma espécie de chicote em cujas pontas encontravam-se presos ganchos de metal que arrancavam pedaços de carne das costas provocando uma enorme perda de sangue. O condenado começava a passar por uma profunda desidratação.


3.3. A coroação de espinhos (Mt 27,27-31)

O condenado continuava nas mãos dos soldados. Vinha a chacota. Jesus fora condenado porque se declarara rei. Os soldados fazem toda uma encenação, como narra Marcos: "Vestiram-no de púrpura e, tecendo uma coroa de espinhos, lhe impuseram na cabeça. Depois começaram a saudá-lo: salve, rei dos judeus! E batiam-lhe na cabeça com um caniço e cuspiam nele e, de joelhos, prosternavam-se diante dele" (Mc 15,17-19). Jesus era rei, portanto, impuseram nele um manto real, um manto de púrpura. Teceram uma coroa de espinhos, talvez até uma espécie de capacete de espinhos. Colocam entre as mãos amarradas um caniço representando o cetro. Ajoelham-se, abaixam o caniço e o beijam. Quando o soltam volta contra a cabeça do condenado. Em vez do beijo de submissão os soldados cospem no seu rosto. Pode-se imaginar a sanha sádica do acontecimento. O interessante é o que diz Isaías: "Ofereci o dorso aos que me feriam e as faces aos que me arrancavam os fios da barba; não ocultei o rosto às injúrias e aos escarros" (Is 50, 6).

[1] BARBAGLIO, Giuseppe. Os Evangelhos I; Loyola, p. 402.


Dr. Frei Romano Dellazari, ofm

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