• Franciscanos do RS

MISTÉRIO LUMINOSOS - Parte 2

O ROSÁRIO COMENTADO DO PONTO DE VISTA BÍBLICO - Parte 6


2.3. O anúncio do Reino de Deus como o convite à conversão (Mc 1,14-15)

"Depois que João foi preso, veio Jesus para a Galileia proclamando o Evangelho de Deus: 'Cumpriu-se o tempo e o Reino de Deus está próximo. Arrependei-vos e crede no Evangelho'" (Mc 1,14-15).

2.3.1. O novo reino como uma boa nova

"Evangelho" na língua grega significava boa notícia, boa nova, um alegre anúncio, anúncio de algo que provocava alegria, festa, libertação, salvação. "Com são belos sobre os montes os pés do mensageiro da boa nova [evangelho] que anuncia a paz, que traz a felicidade, que anuncia a salvação, que diz a Sião: teu Deus reina" (Is 52,7). Por isso essa palavra foi empregada para dar o nome aos quatro livros que narram a vida de Jesus aqui na terra e seus ensinamentos.

O modo de ser e de agir de Jesus, de fato, foi um evangelho. A sua relação com Deus e seu Pai, a sua relação com os seres humanos foi um evangelho vivo. Fazia-se necessária uma conversão, uma mudança de vida, um corrigir a rota da nossa vida, a fim de que a paz, a felicidade, a salvação, pudessem irromper como reino de Deus na história. No judaísmo a irrupção do reino aconteceria pela observância dos mandamentos, já ritualizados através de numerosas imposições legais. Jesus faz uma nova proposta. Nele se concretizou aquilo que disse Isaías e repetido por Lucas:

"O Espírito do Senhor está sobre mim,

porque ele me ungiu

para evangelizar os pobres;

enviou-me para proclamar a remissão aos presos

e aos cegos a recuperação da vista,

para restituir a liberdade aos oprimidos

e para proclamar um ano de graça do Senhor" (Lc 4,18-19).

Lucas diz que Jesus, após ter lido esta passagem de Isaías, acrescentou: "Hoje se cumpriu aos vossos ouvidos esta passagem da Escritura" (Lc 4,21). A boa nova anunciada era evangelizar os pobres, diríamos hoje, os empobrecidos, aqueles que são tornados pobres pelo poder da ganância e da acumulação de capital. A remissão aos presos, ou seja, libertar os que foram presos pelos mais diversos motivos, sejam eles, políticos, por causa da raça, cor, e porque não dizer, àqueles aos quais não se dá o direito de redimir-se por causa de uma justiça vingativa e não remissiva. A cegueira era um dos grandes males da época: muita areia, pouca água e, portanto, pouca higiene. Libertar os oprimidos. Diríamos hoje os que estão oprimidos fisicamente pelas mais diferentes necessidades. Os oprimidos psico-espiritualmente pelas mais diferentes formas de drogas: sejam elas ilusões prometidas, drogas legais e ilegais, falsas promessas religiosas, individualismos etc. No nosso meio encontram-se tantas formas de vivências que são um empecilho para a concretização do Reino de Deus!

2.3.2. O Novo Reino como felicidade ou bem-aventurança

Ao se falar do Novo Reino proposto por Jesus, é interessante perceber que ele não se atém na busca de uma felicidade pessoal, aos próprios interesses apenas, mas numa busca do bem-estar comunitário e social. Ele buscava uma felicidade da qual todos poderiam participar. É conhecido o provérbio que assim reza: “Só é feliz quem consegue tornar um outro feliz” ou afirmações semelhantes. Isso quer dizer que Jesus não conseguia ser feliz sozinho. Segundo Pagola, Jesus acreditava num Deus feliz. Ele acreditava num Deus que olha com amor profundo no mais íntimo de cada criatura. Ele não pregava que eram felizes os “justos e piedosos” ou os “ricos e poderosos”, porque acreditava-se que eram abençoados por Deus. Ele anunciava outra felicidade, não cheia de proibições, como o são os dez mandamentos, mas de forma propositiva, ele dizia que eram felizes os que têm “espírito pobre, simples, humilde”, “os mansos”, “os que choram”, “os que têm fome”, “os misericordiosos”, “os puros de coração”, os que promovem a paz” e “os que são perseguidos por causa da justiça”, ou seja, por causa de sua fidelidade aos projetos de Deus. Ele nos convida a ser “sal da terra”, a “ser luz do mundo”. Ele nos convida a abandonar a espírito de vingança, ou seja, o “olho por olho, dente por dente”. Ele nos convida a amar os inimigos e fazer bem aos que nos odeiam, àqueles que “são um pé no saco”, “aos malas da vida” etc., pois nenhum ser humano é inocente. Ele nos convida a rezar com toda confiança a Deus como Pai providente, não acumulando o desnecessário, pois “o que sobra de mim por causa da minha ganância, está fazendo falta a alguém e é causa da morte de milhões de crianças pelo mundo afora”. Todos somos convidados, como cristãos ou não, mas como seres humanos ao amor mútuo, à filantropia, a ajudar em qualquer tipo de necessidade que os seres humanos se encontram, sejam elas tanto físicas como psico-espirituais, independente de gênero, raça, credo, cor, situação política, econômica ou social.


2.4. A transfiguração do Senhor (Lc 9,28-36)

Esta perícope, uma perícope de cunho apocalíptico e, portanto, eivada de símbolos, contém elementos importantes que visam a catequese dos discípulos como, no futuro, a catequese das comunidades cristãs. Vamos por partes.

2.4.1. Um messias sofredor

No Evangelho, um pouco antes Pedro, em nome do grupo dos doze, confessara que Jesus é o Cristo, ou seja, o ungido de Deus, o messias. O judaísmo de então, entre os quais os próprios apóstolos, esperavam um messias glorioso, todo poderoso. Os apóstolos disputavam entre si quem seria o primeiro ministro! Jesus, no entanto, coloca uma ducha de água fria sobre as expectativas de um messias glorioso vindo sobre as nuvens dos céus. Anuncia-lhes que o Filho do Homem passará por uma rejeição, prisão, condenação à morte, mas que ressuscitaria no terceiro dia. Anuncia que seus seguidores também deverão passar pela confissão que Pedro fez para chegar, através daquilo que aconteceu com Jesus, à glória.

2.4.2. Revitalização da lei e da profecia

Jesus, após uma ducha de água fria, anunciando sua prisão, morte e ressurreição, oito dias depois, convida três dos discípulos mais próximos, Pedro, Tiago e João, para irem com ele a um monte, certamente bem conhecido deles, para rezar. Aí ele se transfigura diante deles. Nas comunidades cristãs de então, perguntava-se se agora bastava seguir os ensinamentos de Jesus. Poder-se-ia simplesmente ignorar o Antigo Testamento? A presença de Moisés, o legislador e de Elias, símbolo do profetismo colocam uma interrogação: O que eles fazem aí na presença de Jesus? Jesus disse certa vez que ele não veio abolir a lei e os profetas, mas levá-los à plenitude. A vinda de Jesus veio revivificar a lei já cristalizada e a profecia feita no Antigo Testamento plenificando a revelação que elas continham.

2.4.3. Abertura para a universalidade e a morte com/por Cristo

Uma questão comum na época era a formação de grupos ao redor de seus mestres achando que eles é que tinham toda a verdade. Formavam escola. A tendência à formação de seitas onde só os seus conseguiriam a salvação era uma tendência muito antiga. Pedro cai nessa fria ao dizer: "Mestre, é bom estarmos aqui; façamos, pois, três tendas, uma para ti, outra para Moisés e outra para Elias" (Lc 9,33). Além do mais, a transfiguração contém um outro dado. Pedro havia reconhecido e confessado Jesus como o Messias. Mas Pedro não engolira a possibilidade do anúncio, pelo Messias, do seu sofrimento, ou seja, que ele seria rejeitado, preso, morto, mas que no terceiro dia haveria de ressuscitar. Essa seria a glória. Para se chegar a ela, à futura ressurreição, é necessário morrer, ou seja, perder a vida, isto é, colocá-la à disposição para galgar até a ressurreição, tal como Jesus. A vida cristã não seria apenas um jardim florido, mas um jardim que poderia conter também espinheiros. O cristão e sua vida assemelha-se, no dia a dia, como uma roseira. Contém lindas flores, mas também contém espinhos. Não existe ser humano perfeito. Aprender a conviver com isso é uma morte e uma ressurreição.


2.5. A instituição da Eucaristia (Lc 22,14-20)


A celebração e participação da Eucaristia é a principal oração do cristão católico. Por que? Resumindo, pode-se dizer que na oferta da hóstia está presente tudo o que se faz de bom, tudo o que se faz por amor, tudo o que se faz para construir etc. Na transubstanciação ela, contendo todas as nossas ações e intenções, se transforma no próprio Cristo que vem até nós em forma de vida eterna. O vinho representa o sangue derramado. Nele estão todas as nossas faltas cometidas, consciente ou inconscientemente. O vinho, uma vez transformado no sangue de Cristo, ele lava nossos pecados, passados, presente e futuros: “O sangue da nova e eterna aliança que será derramado por vós e por todos para o perdão dos pecados" (Oração Eucarística: Consagração).

Tanto os três evangelistas, Mateus, Marcos e Lucas, como também Paulo, narram a instituição da Eucaristia. João, no entanto, diz o que é a Eucaristia: "Assim como o Pai, que vive, me enviou e eu vivo pelo Pai, também aquele que de mim se alimenta viverá por mim" (Jo 6, 57). Em outras palavras, como o Pai é a Vida, diz Jesus, e eu tenho essa mesma Vida do Pai em mim, ou sou a mesma Vida do Pai, quem come minha carne e bebe o meu sangue tem, através de mim, a mesma Vida do Pai, ou seja, tem a mesma Vida do Pai nele, ou ainda, existe na mesma Vida do Pai. Existimos em simbiose com a Vida de Deus.

Na participação da Eucaristia entramos em simbiose com aquele que é o TODO, com aquele que sustenta, através de sua vida, a existência de cada criatura que existe no universo. Começamos a participar, como criatura, da vida de cada criatura do universo.


Dr. Frei Romano Dellazari, ofm

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