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O Testamento de Canindé

  • há 8 minutos
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1.Reunidos e reunidas no Capítulo das Esteiras, da Família Franciscana, em Canindé, CE, junto ao Santuário de São Francisco das Chagas, fomos acolhidos por um espaço que acolhe o grito dos pobres e da terra, da pura fé do povo simples que vem aqui, peregrinando, em romarias, a pé e de todos os modos acreditando nos milagres, carregando as pedras como votos e se abandonando na Providência Divina, na certeza de vida melhor.


2.A partir desse lugar, deixamos nosso Testamento como inspiração, realização de vida e missão, utopia e profecia, iluminação de nossas práticas na construção do Reino de Deus. Testamento que tem inspiração em Assis, lugar de bendizer o Senhor, o Sumo Bem, Todo Bem, o Bem Total. Testamento de Canindé, lugar da cultura do cuidado, especialmente dos pobres que aqui chegam com os trajes de São Francisco. Uma cultura que une religiosidade popular e proteção aos mais vulneráveis numa rede de apoio e denúncias.


3.Na rica bagagem de nossa herança espiritual temos o Testamento de Siena, o Testamento de São Francisco e o Testamento de Santa Clara. O que são estes Testamentos? São apelos de fidelidade ao Carisma, vivência do Evangelho, da Fraternidade, da Pobreza e Obediência, mas observância fiel da Regra de Vida sem glosas, um coerente itinerário existencial. “E depois que o Senhor me deu irmãos ninguém me ensinou o que eu devia fazer, mas o próprio Altíssimo me revelou que deveria viver segundo a forma do santo Evangelho” (Test 14). Queremos escutar, discernir, obedecer e agir, a partir dos desafios do nosso tempo.


4.Diante de nosso olhar precisamos escutar um mundo que clama pela nossa identidade, presença e ação. Nosso lugar é onde ninguém quer ir ou estar, isto é, entre os sofredores da história, os humildes e humilhados, vítimas dos impérios, os que ficam à margem da sociedade. O que vale é a economia, a mais valia e a fragmentação da cultura, da moral, da política, do direito, da educação, da religião, invadidos pelo mercado e pela globalização do capitalismo. Temos que “orientar o nosso olhar para ver “fraturas que marcam a humanidade” onde ocorre a distorção do mundo no contraste entre humildes e poderosos, entre pobres e ricos, entre saciados e famintos (...) observar o mundo a partir de baixo, com os olhos de quem sofre, e não na ótica dos grandes. Considerar a história do ponto de vista da viúva, do órfão, do estrangeiro, da criança ferida, do exilado, do fugitivo” (Magnifica Humanitas, 244) e como diz o Testamento de São Francisco: “Fiz misericórdia com eles” (Test 2).


5.Nosso olhar parte da provocação da espiritualidade franciscana em seu sólido tripé místico, espiritual, teológico e pastoral: Presépio, Altar e Cruz, isto é, Encarnação, Eucaristia e Paixão. Encarnar-se é morar junto, unir o divino e o humano para redimir vidas; Eucaristia é a união de mundos na bela graça da vida, na corporeidade da mais bela partilha e doação; Paixão é a Cruz assumida como dom da mais radical entrega de um sofrimento pleno de sentido. “Prova de amor maior não há, que doar a vida” (cf. Jo 15,13).


6.Na lucidez crítica temos que discernir soluções para uma nova ordem ética, social, espiritual e franciscana. Como nos relacionar com o pluralismo cultural, com a diversidade religiosa e com o colapso ambiental, o super el niño? E como enfrentar todo uso e destruição desenfreada do nosso chão que afeta a vida de todos os brasileiros do norte ao sul, do leste ao oeste, em diferentes modos e consequências? A vida humana nesta terra não pode ser em base de parâmetros apenas científicos e técnicos. Muito conhecimento ainda não é saber, muita ciência pode levar ao poder. “E não queríamos ter mais” (Test 17).


7.Para onde deve se orientar o nosso obedecer e agir a partir do nosso Ser Menores, isto é, ser menor entre os menores, servindo e cuidando dos menores; na liberdade e na gratuidade de restaurar a casa da existência e anunciar o Amor não amado que precisa ser correspondido. Viver como irmãos e irmãs e ir ao encontro das vítimas da falta de fraternidade, da violência, do feminicídio, dos abusos sexuais, espirituais e de poder. Estar com os descartados e rejeitados, com os desamparados, míseros, e discriminados pela sua identidade de gênero, etnia e religião. Ser um grito contra a podridão e a polarização da política de nosso país e do mundo, contra as mentiras nas mídias, contra as ideologias extremadas, da migração forçada pela fome, desastres ambientais e xenofobia. Denunciar e lutar contra o tráfico de pessoas e todas as formas de exploração da dignidade do ser humano. Defender a vida de crianças abandonadas, exploradas e violadas. Assumir a causa dos povos indígenas e estar ao lado de suas lutas que são a defesa dos territórios, dos seus saberes ancestrais e da convivência com a criação.


8.Nosso agir floresce a partir do ver e julgar as realidades e as causas urgentes e emergentes que estão ao nosso redor, à luz destes discernimentos, nos comprometemos a:


9.Apoiar o fim da Escala 6X1, uma vez que devemos trabalhar para viver e não viver somente para trabalhar. Esta escala rouba aquilo que os trabalhadores têm de mais precioso: o tempo para viver, descansar, conviver e estar em fraternidade, com a família. A redução da escala favorece a empregabilidade e acesso a um trabalho que garanta a dignidade humana. Não é aceitável que cristãos e franciscanos sejam indiferentes às dores e sofrimentos dos trabalhadores. Desta forma, estamos em comunhão com a Gaudium et Spes (n. 67), que afirma: “descanso e tempo livre para atender à vida familiar, cultural, social e religiosa” .


10.Realmar a economia em vista da fraternidade, do cuidado com a Casa Comum e do reconhecimento da dignidade de cada pessoa. A Economia de Francisco e Clara, nos questiona sobre a sociedade que queremos. O que podemos fazer juntos na nossa realidade para ter justiça social e economia justa para todas as vidas à luz do bem viver? Pensar, responder e agir para estarmos frente a frente com as necessidades urgentes: as desigualdades quanto aos povos e comunidades tradicionais, quilombolas, ciganos, indígenas e outros povos que resistem, além dos trabalhadores e trabalhadoras que sobrevivem à margem da sociedade.


11.Abandonar o uso de combustíveis fósseis e a necessária descarbonização. Contudo, tais ações não podem servir de pretexto para a imposição de novas formas de exploração dos territórios e dos povos. As chamadas transições verdes, tais como a energética, a digital e a militar vêm sendo apresentadas como soluções para a crise climática, mas, na prática, mantêm intactas as bases do mesmo modelo econômico que a produziu. Em vez de enfrentar as causas estruturais da emergência climática, o produtivismo, o consumismo, a concentração de riqueza e poder e a lógica de crescimento ilimitado, essas transições colocam a expansão da mineração e do extrativismo no centro das respostas, aprofundando a mercantilização e a depredação da natureza e dos bens comuns. Temos que exigir uma transformação sistêmica e não ficarmos transitando no mesmo sistema. Uma mudança de estilo de vida, como diz a Doutrina Social da Igreja.


12.Fazer valer o Cântico das Criaturas em meio aos abusos contra a nossa Mãe e Irmã Terra. Todas as criaturas são Irmãs e não objetos sujeitos a exploração, dominação e mercantilização, que favorece a concentração de terra e água nas mãos de poucos. Um não ao porte e uso de armas que geram morte e são mostras do poder sem poder, precisamos desmilitarizar as palavras e gestos. Sermos sempre um anúncio da Paz e do Bem! “Uma saudação me revelou o Senhor, que disséssemos o Senhor te dê a Paz!” (Test 23). Lutar para fazer valer a fraternidade universal.


13.O papa Francisco nos exortou na Laudato Si’: “Caminhemos cantando, que as nossas lutas e a nossa preocupação por este planeta não nos tirem a alegria da esperança” . Sejamos uma Fraternidade como força que nos deixa e nos faz ser irmãos e irmãs, na proximidade, na intimidade afetiva contra a insensível cultura dominante. Vamos reencantar a política com a defesa da democracia e do direito de todos.


14.Como gestos concretos reafirmamos nosso desejo de que todos, individual e coletivamente, conheçam, participem e partilhem de tantas ações já realizadas nos nossos regionais da Conferência da Família Franciscana do Brasil (CFFB). Vamos juntos compartilhar a nossa vida e missão!


15.Finalmente, como uma proposta concreta deste Capítulo das Esteiras, que a CFFB proponha que o Santuário São Francisco das Chagas, no Canindé/CE, seja o Santuário da Ecologia Integral da Família Franciscana. Um lugar referencial para a conscientização e formação prática na dimensão socioambiental de que tudo está interligado. Um lugar capaz de despertar para o cuidado com a biodiversidade, no combate à desigualdade e a pobreza. Uma referência da Justiça, Paz e Integridade da Criação.


16.Desde Canindé, aproximadamente mil franciscanos e franciscanas capitulares, aos pés da imagem de São Francisco das Chagas, celebrando os 800 anos de seu transitus, mais uma vez evocamos o Testamento do Seráfico Pai: “E eu, Frei Francisco, pequenino servo vosso, tanto quanto posso, vos confirmo por dentro e por fora esta Santíssima Bênção” (Test 41).



Conferência da Família Franciscana do Brasil


Canindé, 21 de junho de 2026.



 
 
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