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De uma lógica da tolerância para uma Ética da Hospitalidade.

Luis Alberto Méndez Gutierrez

Neste artigo, pretendo distanciar os conceitos de Tolerância e Hospitalidade, já que popularmente escutamos falar muito em Tolerância como sendo um dos caminhos para que as relações com os outros, desiguais, assimétricos, absolutamente outros, sejam de respeito de solidariedade e de bem comum. A tolerância é o que rege as relações totalitárias, fechadas, e os sistemas que sentem o outro como uma ameaça, pensam que precisamos nos armar para terminar com a existência daqueles que ousam ser diferentes de nós.

Na tolerância, a possível relação é a partir de um pacto entre eu e ele. Ele pode viver no mesmo mundo que eu vivo, sempre que respeite o pacto estabelecido, se ele sair daquilo que foi convencionado, nesse momento se torna um perigo para mim, até um inimigo que deve ser exterminado. Portanto eu o tolero, o acolho na sua diferença, que já está pré-estabelecida pelo dominador, que coloca os limites e entende a diferença, mas não o acolhe na desigualdade porque nela perde o controle. Vemos isso todos os dias em diferentes situações, quando socialmente até chegamos a aceitar que as minorias - que em muitos casos não são minorias – que são fragilizadas e não têm um poder de se afirmar na sociedade classista e preconceituosa, fragilizadas, são consideradas perigosas, que devem ser extirpadas da sociedade para que não contaminem uma classe social que se julga superior. Vemos isso nos casos de racismo, intolerância religiosa, xenofobia, ódio aos migrantes econômicos. Esses outros desiguais, inapropriados, porque rompem um esquema de uma lógica preconceituosa e certa ordem estabelecida por aqueles que têm o poder para estabelecer essa ordem, tida como certa por uma razão preconceituosa, machista e classista que é a razão totalizadora e branca.

Por esse motivo que não há aceitação desse outro, não há uma acolhida, hospitalidade. Porque ele sempre exige que me desloque, saia de meu ritmo, exige-pensar, agir diferente. Então há uma tolerância, estabeleço algumas condições de convivência.

Aquele que chega de fora, o estrangeiro, o estranho, o diferente, é alguém que ameaça a fronteira e que bate à porta, ou simplesmente o estranho pode ser aquele que na rua nos pergunta a hora ou uma informação. O desconhecido é o hostil, o estranho que na nossa sociedade atual se tornou um inimigo. Diante dele tenho que me proteger, construir muros, armar-me para me sentir protegido.

Mas o hospede que se aventura a receber o hostil também é um estranho para aquele que chega. Há um encontro entre hospitalidade e hostilidade. A proposta da hospitalidade incondicional ao outro, como um absolutamente outro, é a proposta que nos faz Derrida e Levinas, os quais nos convidam a sair de nossa mônada fechada e egoísta para entrar em relação com o totalmente outro separado de nós. Na hospitalidade, o outro nos olha a partir da sua realidade e nos interpela a olhar para ele, escutá-lo, tocá-lo. É um convite a fechar os olhos, porque aquilo que vemos não é a realidade, é necessário limpar os olhos de preconceito, da inveja, da ódio, do medo, que nos impossibilitam olhar o que é verdadeiro.

Ao estranho não devo tolerá-lo, devo acolhê-lo. Não tenho que exigir mudanças nem determinados comportamentos a partir das minhas decisões. Na hospitalidade acolho o outro sem perguntas, sem acordos, sem esperar nada em troca. Há uma abertura para que o estranho fale e traga as novidades de uma exterioridade que não conheço.

A ética da hospitalidade é uma relação de alergia, de rejeição, porque o outro não é bom comigo, ele é mau, ele provoca em mim desconforto, fere meu interior, é insuportável vê-lo, é inoportuno, mas assim mesmo me responsabilizo por ele, mesmo que ele não seja comigo. Sou eu que tenho que fazer o bem, o outro não necessariamente tem que corresponder, nem agradecer. Nesse sentido, ele é mau, é ruim comigo, ele não é bom, é desigual como singularidade. Ele é culpado e malvado comigo, porque me fere interiormente, incomoda-me e, portanto, é o primeiro habitante em mim. Mas a ética não me deixa pensar desse jeito e me exige olhar e ir ao encontro dele e amá-lo, responsabilizando-me por ele.



BIBLIOGRAFIA:

MONTANDON, Alain. O livro da Hospitalidade: acolhida do estrangeiro na história e nas culturas. Trd. Marcos Bagno e Lea Zylberlicht. São Paulo: Editora Senac, 2011.

HUBERMAN-DIDI, Georges. O que vemos, o que nos olha. Trd. Paulo Neves. São Paulo: Editora 34, 2018.

RIBEIRO, Nilo Junior; AGUIAR, Diogo Villas Bôas; RIAL, Gregory; CARVALHO, Felipe Rodolfo de. Amor e Justiça em Lévinas. São Paulo, Perspectiva, 2018.

PEREIRA, Lima Gustavo de. Democracia em desconstrução: Da tolerância à hospitalidade no pensamento de Jacques Derrida. Florianópolis: Empório do Direito, 2017.

SOUZA, Ricardo Timm de. Justiça em seus termos. Dignidade humana, dignidade do mundo. Rio de Janeiro: Lumen Júris, 2010.

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