• Franciscanos do RS

19º Domingo do Tempo Comum

Pistas homilético-franciscanas


Liturgia da Palavra:­ Sb 18,6-9; Sl 32; Hb 11,1-2.8-19; Lc 12,32-48

Tema-mensagem: Não tenhais medo pequeno rebanhinho

Sentimento: confiança filial

Introdução:

No Domingo passado fomos exortados a não buscar segurança na ganância e nos bens deste mundo. Hoje, a exortação é para que nos libertemos do medo de encontrar-nos com Ele e de segui-Lo em sua subida para Jerusalém a fim de ser preso e crucificado.


1. Livres para o encontro com o Senhor

O Evangelho que trata dessa exortação e para este Domingo é tirado de São Lucas, mais precisamente do famoso sermão de Jesus sobre “os lírios do campo e as aves do céu”, isto é, da confiança que devemos ter nos cuidados que seu e nosso Pai tem para conosco. Para isso Jesus apresenta algumas sentenças e um exemplo.


1.1. Não tenhais medo pequeno rebanhinho (Lc 12,32-48)

A primeira sentença de Jesus no Evangelho de hoje dá a postura básica para todos os seus discípulos em sua missão evangelizadora: “Não temas, pequeno rebanhinho” (Lc 12, 32a). Eis uma expressão de carinhoso encorajamento dirigido pelo Bom Pastor às suas ovelhinhas! Pequeno, certamente, em comparação com o mundo hostil. Mas, é ainda mais pequeno em virtude de sua pobreza, humildade e fragilidade. O motivo dessa exortação é o espanto dos discípulos diante, de um lado, do anúncio da crucificação do mestre em Jerusalém e de outro, diante da missão que o Senhor lhes confiara: serem os anunciadores e testemunhas de que neste seu mistério, a Cruz, está a Boa Nova da salvação dos homens. Um anúncio inédito, impossível de aceitar e de testemunhar segundo os critérios humanos.

Como haveriam de desempenhar tal missão, eles, duros de coração, soberbos e simplórios; eles que jamais haviam frequentado qualquer curso de preparação teológica ou pastoral? Como, pois, não haveriam de temer? A resposta do Mestre é simples: “porque aprouve ao vosso Pai dar-vos o Reino” (Lc 12, 32b). Aí está a riqueza originária, o tesouro essencial, o Reino dos Céus: a fé do Pai que os escolhera e os confiara a Ele para serem seus discípulos-missionários. Se o Pai confiara neles porque não haveriam também eles de confiar Nele?


1.2. Vendei vossos bens e dai esmolas

A exortação segue, dizendo: “Vendei vossos bens e dai esmolas”. Dar esmola não significa tanto “fazer caridades”, mas, acima de tudo, acolher na alegria agradecida, no respeito reverente e carinhoso a tudo e a todos quantos nos vem ao ou de encontro – amigos ou inimigos – gente de casa ou estranhos – benfeitores ou malfeitores - como visita, bênção, graça, amor de nosso Pai do Céu. Neste sentido, a esmola – exercício essencial ao seguimento - indica o desprendimento dos bens do mundo. Pois, os cuidados da vida, o afã das riquezas, a voluptuosidade dos prazeres podem sufocar a palavra de Cristo no coração do discípulo (cfr. Lc 8, 14). Por isso, Francisco exortava seus frades a que fossem “peregrinos e forasteiros” neste mundo, não pondo jamais no acúmulo dos bens a segurança da vida.

É preciso ter em mente que os bens foram feitos para o uso e para a partilha, a solidariedade, a ajuda ao outro, especialmente aos mais miseráveis, jamais para o abuso e para o acúmulo. A palavra “esmola”, em grego “eleêmosyne”, está indicando tudo isso. Beda, o venerável, dizia que a esmola não é só o dinheiro dado em ajuda, mas é toda ajuda, toda beneficência. Esmola, dizia ele, é também quando alguém oferece proteção a outro; quando um médico cura, quando um sábio aconselha no espírito da gratuidade. Da esmola assim entendida vale, também, o que Pedro disse da caridade (agápe): “cobre uma multidão de pecados” (1 Pd 4,7); é o que o próprio Senhor disse no Sermão da Montanha: “Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia” (Mt 5, 7). Gregório Nazianzeno aplica a esmola a palavra de Jesus no Juízo final: “eu tive fome e me destes de comer; tive sede e me destes de beber; eu era estrangeiro e me acolhestes; estava nu, e me vestistes; doente, e me visitastes; na prisão, e viestes a mim (...). Todas as vezes que que o fizestes a um destes mais pequenos, que são meus irmãos, foi a mim que o fizestes” (Mt 25, 35-36. 40). Aquele que se doa aos pobres recebe deles uma riqueza muito maior: “ser solidário com os pobres, pro­mover significa que nós, “ricos”, como indigentes do senti­do mais profundo do homem, mendigamos da pobreza do pobre a riqueza da vida, para nos convertermos a um princípio mais radical e essencial do homem” (Harada).


1.3. Pôr o coração no tesouro de nossa vida

A identidade de um homem se decide pelo seu coração, isto é, por aquele seu núcleo central de onde brota a sua atenção, sua intenção, sua paixão, seu afeto, seu desejo, sua vontade. Por outro lado, o que um homem gosta, estima, aprecia, deseja, quer, busca e se empenha para alcançar, é seu tesouro. Assim, seu tesouro torna-se também sua identidade. Por isso, segue dizendo o Senhor: “pois onde estiver o vosso tesouro, ali também estará o vosso coração”. Nas palavras do frei Harada: “lá onde está a medida de vossa riqueza, ali está a medida do vosso coração. A medida com que medis algo como rico ou po­bre é a medida do vosso coração. Algo é rico ou pobre, con­forme a medida que acolhe o vosso coração. Que algo seja rico ou pobre trai a riqueza ou pobreza do vosso coração”. Ora para o coração de um discípulo não pode haver outro tesouro senão seu Senhor com sua Boa Nova: o amor, a misericórdia do Pai. Assim, o discípulo de Jesus não há de pôr sua segurança nos bens deste mundo, em si mesmo, nas suas próprias forças e méritos, nos outros homens, mas no Senhor que está para voltar a qualquer hora. Nosso desafio, portanto, consiste em elaborar e testemunhar a síntese deste Boa Nova de Jesus, o Pai misericordioso, “pois onde estiver a tua síntese, aí estará teu coração” (EG 143).


1.4. Homens prontos para esperar o seu senhor que vai voltar da festa

O modo de ser dos “pobres de espírito”, dos “misericordiosos”, descrito acima, movido pela gratuidade do amor, longe de tornar o homem acomodado, alheio à terra dos homens e aos homens da terra, com suas lutas e labutas, faz dele um homem sempre operoso, fecundo, serviçal, útil, prestimoso aos outros homens, especialmente aos mais . miseráveis. Por isso, diz o Senhor: “Que os vossos rins estejam cingidos e as vossas lâmpadas acessas” (Lc 12, 35). Nós diríamos: “que vocês estejam de mangas arregaçadas e em atitude de atenção para servir”. Trata-se, pois, da prontidão para agir. Mas o agir, o fazer, precisa ser consciente, sabendo o que convém fazer e como o convém. Por isso, a alusão às “lâmpadas acesas”, que significam a clarividência que nasce do vigor da reflexão. No seguimento de Jesus Cristo é preciso que ação e reflexão sejam uma unidade simples, indivisível, que brota da obediência (ob-audiência), da escuta da palavra do Senhor.

As palavras de Jesus, em seguida, falam da vigilância. “E sede como quem espera o seu senhor voltar das núpcias, a fim de lhe abrir logo que ele chegar e bater. Felizes daqueles servos que seu senhor ao chegar, encontrar vigilantes. Em verdade, eu vos digo, ele cingirá os rins, fá-los-á tomar lugar à mesa e passará para os servir. E se for na segunda vigília que ele chegar, ou na terceira, e der com esse acolhimento, felizes serão!” (Lc 12, 36-38). Os Padres da Igreja leem nesta parábola a mensagem da vigilância necessária aos discípulos em face da espera da “parousía”, isto é, do retorno do Senhor Jesus que foi celebrar as núpcias junto do Pai. A espera do seu retorno requer vigilância: não dormir, não se deixar tomar pelo torpor do espírito, na noite do mundo. É preciso estar sempre com traje de trabalho e com luzes acesas, isto é, de prontidão. Se o homem permanece desperto, lúcido, operoso na caridade, sendo prestimoso para os outros homens, será recompensado pelo Senhor que vem. Ele retribuirá o serviço (diakonía) que foi prestado aos homens recompensando-o como se tivesse sido prestado a Ele mesmo. Ele servirá os seus servos, no banquete da eterna alegria, dando-lhes o descanso e as inefáveis e infindáveis satisfações espirituais.

A vigilância requer, por sua vez, a perseverança. Jesus fala da perseverança aludindo às “vigílias” da noite. As sentinelas que vigiavam a cidade contra o ataque dos inimigos dividiam a noite em três ou quatro vigílias. Os Padres da Igreja leem nestas vigílias as idades da vida do homem (Gregório, Cirilo). A primeira vigília da noite é a infância. Esta não é lembrada na parábola. É que, na infância, o homem ainda não é chamado em causa em sua responsabilidade perante a vida. A segunda vigília, neste sentido, seria a juventude, e a terceira, a maturidade e a velhice. É quando o homem deve exercer a sua responsabilidade buscando viver uma vida honesta e prestimosa aos outros homens.

A perseverança no serviço do Senhor requer que aquele que está de pé cuide para não cair e que aquele que caiu cuide em depressa se levantar. Ela requer a contínua espera do inesperado do retorno do Senhor. As palavras seguintes vão nesta direção: “Vós o sabeis: se o dono da casa conhecesse a hora em que o ladrão viria, não deixaria furar a sua casa. Vós, também, estai preparados, pois numa hora em que não pensais é que vem o Filho do Homem” (Lc 12, 39-40).


1.5. Uma parábola para todos e para nós

Depois de todos estes ensinamentos, Pedro, falando como a boca dos Apóstolos, pergunta: “Senhor, é para nós que dizeis esta parábola ou para todo o mundo”. Isso quer dizer: o que dizeis o dizeis para todos os discípulos da tua Igreja ou somente para os intendentes dela? A intepretação dos Padres da Igreja (Beda, Cirilo, Ambrósio, Teofilato) é que as palavras anteriores são preceitos para todos os que estão no seguimento de Cristo. Mas a parábola seguinte esclarece como aquelas palavras hão de ser aplicadas na vida, no serviço (diakonía), dos pastores e doutores, enfim, dos guias da Igreja. A parábola fala do “administrador fiel da casa da família” (pistós oikonómos), o “mordomo”. Ele não só é fiel (pistós), como também é prudente, sensato, ajuizado (phrónimos). Fidelidade e tino são as características de um bom administrador dos bens de uma casa, de uma família. Estas devem ser também as virtudes dos que estão incumbidos de ministérios de liderança na Igreja. Pela pregação e pelo exemplo precisam cuidar de prover os fiéis com o alimento da Palavra de Deus, distribuindo-o segundo a capacidade de recepção dos discípulos, nos tempos oportunos. A eles o Senhor promete as alegrias eternas em proporção com a responsabilidade desempenhada frente ao “pequeno rebanhinho”.

Servo bom é aquele que tem a paciência da espera do Senhor que vem. Paciência perseverante. O que o Senhor disse a todos os seus seguidores serve de modo especial a estes, aqui: “na vossa paciência tornareis próprias as vossas vidas” (Lc 21, 19: en te hypomene hymon ktésasthe tàs psýchás hymôn). Porém, servo mau é aquele que perde a paciência de esperar o Senhor que vem. Os servos maus são “autorreferenciais”! (Papa Francisco), Se põem a si mesmos como senhores e donos da casa, começam a viver para satisfazer às suas voluptuosidades e a desferir maus tratos para os companheiros, ou, numa figura bíblica, chegando a devorar as próprias ovelhas. Assim agindo, põem a perder as suas vidas. A maior dignidade lhe servirá então de maior condenação. Por isso, as palavras finais do evangelho de hoje são uma advertência para aqueles que detêm as chaves do conhecimento e o poder de mando, mas cuja ciência não é acompanhada de boas obras, e cujo poder de mando não se fundamenta na autoridade de quem serve e dá a vida, à imitação do Bom Pastor. Sua ruina será maior e pior do que a daqueles que agiram numa ignorância culpável, mas que não detinham a responsabilidade de guiar a comunidade e de educá-la no seguimento de Cristo. São como árvores que deram folhas e, a depender, até flores, mas não deram fruto. O que o Senhor vai pedir de volta, da semente que ele plantou no coração do homem são, na verdade, os frutos de bondade, de amor, de misericórdia, de paz.


2. Fé como testemunho de Deus (Hb 11,1-2.8-19)

A segunda leitura, tirada da Carta aos hebreus, nos leva a recordar e a celebrar o princípio de todo Povo de Deus tanto antigo como novo. Princípio como raiz, fonte e não apenas como dado histórico. Segundo esta leitura o protagonista deste princípio não são os diversos personagens por ela enumerados, mas o bom testemunho de Deus (Hb11,1-2). Isso significa que o Povo de Deus, a humanidade toda com sua história e até mesmo a criação toda nascem de um inaudito ato de confiança, entrega, fé de Deus. Assim, a fé dos cristãos, como a daqueles antigos personagens do Antigo testamento, nasce da experiência de serem vistos, chamados, aceitos e enviados por Deus, por Jesus Cristo para serem testemunhas de sua Pessoa e de seu Evangelho. Ou seja, nossa fé nasce, cresce e floresce da fé de Jesus Cristo o descendente maior e definitivo, o Filho único de Deus, prefigurado em todos aqueles personagens elencados nesta leitura de hoje.

Segundo o apóstolo Paulo, o discípulo do Senhor, porém, descrito pelo evangelho de hoje como “administrador fiel”, isto é, aquele que é movido pela graça da fé, já não se atem mais ao passado, ao que lhe foi transmitido ou testemunhado, mas ao futuro. “A fé é um modo de possuir desde agora o que se espera, um meio de conhecer realidades que não se veem”, diz a Carta aos Hebreus (11,1). A crença requer assentimento e adesão. A fé implica fidelidade. O contrário da crença é a dúvida. O contrário da fé, porém, é a infidelidade, a inconstância, a impaciência.

Crer em Deus é mais do que ter a crença que Deus existe. Também é mais do que dar crédito à sua palavra e toma-la por verdadeira. Crer em Deus é entregar-se a ele, no amor. Para Santo Agostinho, o ato de crer tem três sentidos: credere Deum, credere Deo, credere in Deum. Vamos tentar traduzir: crer Deus, crer a Deus e crer em Deus.

- “Crer Deus” é ter por verdadeiro que Deus existe, é apoiar-se na verdade da existência de Deus; acreditar que Ele é real, sim, realíssimo, o mais real de tudo o que há.

- “Crer a Deus” é o mesmo que dar crédito a Deus, receber a sua autocomunicação, apoiar-se na sua revelação, na sua palavra, na mensagem que nos foi transmitida pelos profetas e por Jesus Cristo, seu filho.

- Por fim, “Crer em Deus” significa – a modo de esposo/a - confiar-se a Ele, entregar-se a Ele, como a Alguém, a um Tu, que é digno de ser amado acima de todas as coisas, com todo o coração, com toda a alma, com toda a mente.

No primeiro caso, portanto, eu creio (a verdade de) Deus; no segundo caso, eu creio, isto é, me fio na e dou crédito à sua palavra como sendo palavra verdadeira e digna de adesão; no terceiro caso, eu creio em Deus no sentido de confiar nele, de pôr nele o meu amor e de buscar responder a esse amor com a minha fidelidade, constância, paciência. Neste sentido, crer é crescer Nele ou a partir Dele.


3. Fé como sacrifício (Sab 18,6-9)

A segunda leitura, tirada do livro da Sabedoria, faz a exaltação da memorável “Noite da libertação” dos judeus. Tudo isso, para que sabendo a que juramento tinham dado crédito, perseverassem intrépidos (na fé).

Antes de sair do Egito, antes mesmo de Jahvé começar a agir os israelitas fazem um profundo ato de fé comunitária no interior de suas casas: Os piedosos filhos dos bons ofereceram sacrifícios secretamente, e, de comum acordo, fizeram este pacto divino: que os santos participariam solidariamente dos mesmos bens e dos mesmos perigos.

Os israelitas são chamados de “piedosos filhos dos bons (justos)”, isto é, descendentes de um povo que tem como raiz não um trato social, mas a fé, isto, é a resposta dos santos patriarcas ao chamado de Deus para serem Dele e somente Dele. Por isso a fé sempre incluirá sacrifício, doação de ambas as partes.


Conclusão

Grande vocação e missão suscitam não apenas grande medo, mas também grande vigor e entusiasmo. Por isso, dizia São Francisco aos primeiros frades quando enviados por ele a irem pelo mundo: “Não temais por serdes poucos e parecerdes ignorantes, mas com segurança anunciai com simplicidade a penitência, confiando no Senhor que venceu o mundo; ele, com o seu espírito fala por vós e em vós, a fim de exortar a todos a que se convertam a ele e observem seus mandamentos” (LTC 36).

Fraternalmente,

Marcos Aurélio Fernandes e Frei Dorvalino Fassini

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